Que tia é essa

Resenha de Tia Júlia e o escrevinhador

Meu quinto livro do ano foi um reencontro com um autor que já conhecia de duas outras ocasiões: Mario Vargas Llosa. A Folha de São Paulo mandou para o meu pai como “presente” para o assinante uma edição de Tia Júlia e o Escrevinhador. Tem capa dura, papel pólen e tal…  Resolvi ler. Não estava na lista de próximas leituras, mas foi só colocar ele lá e ficou tudo bem. De Llosa, já tinha lido Pantaleón e as Visitadoras e As Travessuras da Menina Má. Achei ambos bons, mas nada que tenha me marcado muito, ou de construção muito diferente, peculiar. São bons romances.

De Tia Júlia e o Escrevinhador gostei mais. É também um bom romance, no estilo reconhecível de Llosa e acho que mais próximo do Pantaleón do que do Travessuras, por causa do humor no texto, mas com um requinte a mais na construção da narrativa. Explico. Correndo entrelaçada ao romance do quase menino Mario (ou Varguitas, Mario Vargas, sim, o próprio?!) com a divorciada quase senhora Tia Julia, segue a história de Pedro Camacho, um excêntrico escritor de novelas radiofônicas megaprodutivo. Os capítulos se alternam entre capítulos de algumas das mil novelas que Pedro Camacho escreve e partes da vida real de Mario.

No começo, levei um susto porque pensei que aquele capítulo com personagens novos era mais uma parte da história “real”, para ser levada a sério, e achei que Llosa tinha ficado louco e começado a escrever novelescamente. Depois entendi que eram partes de histórias dentro da história e achei o recurso bastante divertidinho. Principalmente mais para o fim do livro, quando as novelas começam a refletir o que Pedro Camacho está passando (não posso dizer mais sem spoiler e hoje não estou a fim de spoilers).

Por interessante mesmo, vale a história de Pedro Camacho que corre meio sorrateira no Tia Julia. A história central, o romance, que traz o humor Llosiano e determina a cronologia do livro, é uma espécie de embalagem para o caso Pedro Camacho: você lê um para acompanhar o outro. Não que a história de Mario e Julia não seja legal, mas é mais ou menos o que achei dos outros dois que li: um bom romance.

Um pouco tributo às radionovelas, um pouco gozador do estilo melodramático, Tia Julia e o Escrevinhador é um livro que flui demais. Você se vê saltando das peripécias de Mario para arrumar um jeito de se encontrar com Tia Julia debaixo das barbas da família bisbilhoteira para mais um capítulo de alguma história esquisita cheia de tragédias impossíveis e de volta para Mario na rádio, ou seja, impossível ficar entediado. Diversão Tio Llosa garante.

Agora, tocando na parte mais sensível, se a parte do romance com Tia Julia é um detalhe biográfico nesse que parece ser um romance semiautobiográfico, Mario Vargas Llosa era um jovem meio estranho… Eu esperava que ele parasse de se referir a ela como “tia” no texto já quando escreveu que se beijaram!

Isabela Torezan

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