Resenha de Othelo
A sexta leitura do ano me fez querer escrever sobre tradução. Até porque a história de Othello já é suficientemente conhecida, nada sobre a trama em si seria muito original. Já li em algum lugar (perdão a quem deveria estar sendo citado aqui como referência, não me lembro do seu nome) que traduzir é reescrever. Eu acho que é mesmo. Acho o trabalho de tradução uma coisa fascinante, principalmente porque une meu amor por ler com o gosto por aprender línguas.
Li Othello na versão original, numa edição da Folger Shakespeare Library, que é muito boa para estudantes ou para quem nunca teve contato com o texto original de Shakespeare. Eu já tinha lido Macbeth no original, mas eu tinha treze anos e tudo o que guardei do livro foi a Cena Um do Ato Um, a cena das bruxas, que eu decorei e sei declamar até hoje. Ou seja, foi uma leitura que não serviu de nada. Meus outros contatos com Shakespeare foram traduções e também pouco me marcaram, outra coisa que me fez pensar no valor da tradução.
Essa edição da Folger (é um paper back pequenininho, muito bom de segurar e carregar) tem o texto da peça só nas páginas ímpares e nas pares tem sempre um glossário dos termos “esquisitos” da página do lado. Ajuda bastante. Na verdade, depois que você se familiariza com o inglês antigo, acaba até consultando menos esse apoio, mas no começo ele foi fundamental.
Essa familiarização é que torna o texto de Shakespeare, arrisco dizer, um pouco intraduzível. Claro que devem existir ótimas traduções das peças. Mas tenho minhas dúvidas se é possível traduzir toda aquela riqueza de vocabulário. Imaginei um tradutor encarregado de traduzir a parte em que Othello chama Desdemona de “Minion” e, olhando no glossário, descobri que era um jeito de dizer “querida”, mas também podia querer dizer algo como “imoral”. Isso aparece já no final do livro, e percebi que na verdade só fui procurar o significado porque me lembrei daqueles bichinhos amarelos irritantes do desenho infantil. Do contrário teria incorporado o “Minion” e seguido a leitura, como fiz com muitos outros termos. A familiarização de que falei faz isso, é uma espécie de mágica, sentir o sentido mesmo sem saber o sentido. Alguém mais inteligente já deve ter escrito sobre isso.
Admiro traduções porque são uma coisa muito democrática. Não é todo mundo que tem a oportunidade de aprender inglês e de aprender o suficiente para decifrar inglês arcaico. Mas e quando uma tradução corre o risco de ser uma completa reformulação do texto? Acho que nesse caso, a qualidade dela vale mais do que nunca. Porque se traduzir é reescrever, que ao menos os leitores não fluentes em inglês tenham acesso a um bom texto, ainda que não seja a mesma história que Shakespeare escreveu. Sempre pensei isso lendo poesia estrangeira, e descobri que pelo jeito vale o mesmo para peças do Bardo. Meu respeito pelo trabalho do tradutor acaba de crescer um pouco. Acredito no poder da literatura de tornar qualquer vida melhor, e a tradução que for capaz de levar a mais pessoas coisas como o peculiar humor shakespeariano (que pode ser incrivelmente popular) é uma outra obra de arte.
Isabela Torezan
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