Resenha de Frankenstein, O médico e o monstro e Drácula
Promoções de livros são uma coisa maravilhosa. E perigosa. Eu não ia comprar livro nenhum, mas como resistir a uma edição três-em-um capa dura, papel pólen e fitinha dourada de Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula (Mary Shelley, Robert L. Stevenson e Bram Stoker, respectivamente) pela metade do preço? E foi por isso que as leituras sete, oito e nove de 2018 chegaram juntas em casa, passando na frente de várias outras já antigas na lista, empurrando todo mundo com a sua sensualidade de edição imitando livro velho. É da Martin Claret, a mesma editora daquelas edições de bolso horríveis (muitíssimo feias mesmo, desculpe, Martin Claret) que todo mundo com certeza já viu alguma vez na vida, geralmente de clássicos da literatura. Mas olha, essa excitante edição de clássicos do terror compensou muitos relacionamentos fisicamente afetados pela falta de sal daqueles papéis brancos e capas moles com gravuras cafonas. Pensar que eu li O Idiota numa dessas…
O desafio de falar de um livro desses, sensações físicas à parte, é que são três livros num só. Três relacionamentos diferentes, mas tratados do mesmo jeito e engatilhados sem a regra que sempre uso de só começar o próximo livro no dia seguinte, mesmo que acabe o livro de manhã. Eu poderia ter fingido que eram três livros separados e até ter lido algo no meio, mas por algum motivo achei que não devia. Eles formaram uma unidade muito sólida encadernados os três juntos assim, tão bonitos.
Mas para falar dos livros em si, não tenho como não recorrer à divisão e falar de um de cada vez. Na verdade, eu já tinha lido Frankenstein e O Médico e o Monstro há muito tempo atrás, com onze, doze anos. De Frankenstein me lembrava só da última cena, e de novo a achei muito marcante, e de O Médico e O Monstro não lembrava nada.
A história por trás da criação de Frankenstein já é legal: Mary Shelley participou de uma “brincadeira de férias” com seu marido e alguns amigos, todos homens, e a sua foi a única história assustadora a ser terminada. A proposta era uma história curta e o dela saiu um livro. Eu acho a história mais comovente do que assustadora, na verdade, mas há que se considerar a época, anterior a praticamente todo o terror literário. Meu personagem favorito é de longe o monstro, um ser solitário, feio, rejeitado, que teria dado qualquer coisa para não existir e que ainda por cima é vegetariano (ninguém difunde essa última informação, achei curioso). Victor Frankenstein é um jovem pretensioso, embriagado com a própria inteligência e habilidades científicas, e acha que pode brincar de Deus moldando um ser vivo adulto do nada, desviando as leis da natureza que exigem a concepção desde o feto. As consequências vieram, para quem acredita em Deus, foi castigo. Para quem não acredita, a moral é “cuidado com a falta de humildade”.
Por quanta dor o monstro não passou, antes de começar a infligir dor aos outros. Quase chorei quando ele desabafa para Victor que é o ser mais sozinho do mundo, que nunca vai ser amado porque não existe uma semelhante a ele e sabe que o rejeitam por ser diferente e feio. Frankenstein é, afinal de contas, uma história da rejeição ao diferente. E das mais comoventes, apesar do estilo romântico rebuscado de Shelley (eu geralmente acho difícil me comover com textos muito rebuscados, porque acabam ficando cômicos).
Falando em cômico, Drácula é engraçado. Sério. Eu tinha assistido ao filme com o Gary Oldman há pouco tempo atrás, e achei engraçadíssimo, mas achei que era proposital do filme, ou efeito de ser um filme velho. Mas não, impossível aceitar que Bram Stoker encheu aquele livro (que não é pequeno não, é o maior dos três) de diálogos dramáticos mimetizando os romances românticos sérios sem a intenção de divertir um pouco o leitor. Claro, é uma história de vampiros, tem cenas assustadoras. Mas eu achei, sobretudo, uma história divertida. Talvez alguns achem aterrorizante o conde se arrastando pela parede que nem uma lagartixa gigante com capa; eu li isso com um sorriso.
É interessante também o personagem de Mina Harker, a jovem esposa de Jonathan Harker, o advogado que vai parar na suspeita morada do vampirão. Uma moça muito esperta, que aprendeu taquigrafia, escreve longos diários detalhados e sonha em ser jornalista, mas é a perfeita imagem da mulher submissa. Parece uma propaganda: olha que legal, você pode ter sua própria máquina de escrever, saber línguas e taquigrafia, mas isso não a impede de obedecer imediatamente quando seu marido te mandar ir dormir porque o assunto não é para você! Libertador, não é mesmo. E ela fingiu que dormiu ainda, porque estava sem sono.
Faltou falar de O Médico e O Monstro. É o menorzinho dos três, eu diria que é uma novela, talvez por isso eu não lembrasse da história, tendo lido há uns dez anos atrás. Esse está mais para o que chamam hoje de terror psicológico, ou só suspense mesmo. Apesar de não me lembrar da história, eu já sabia qual o segredo do Dr. Jekyll (acho que todo mundo sabe, esse é o problema de virar clássico: acaba virando spoiler também), então como suspense não funcionou muito. Acho que o maior valor desse livro para mim foi o texto mesmo, que é muito bom. De Robert L. Stevenson, só li A Ilha do Tesouro, que adorei (aliás, li faz dez anos também, hora de reler). É um texto muito correto, impecável. Aquele tipo de texto bem escrito que me dá a mesma sensação de sentar na cama no inverno com um cobertor, um livro e chá. Você senta e pensa ah que situação confortável. Stevenson você lê e pensa ah que texto confortável.
Já ultrapassei bastante os limites da concisão que me estabeleci. Mas nesse caso estava liberado, eram três delícias de uma vez só. Para quem leu até aqui, espero que tenha ficado com vontade de ler pelo menos um dos três. Afinal, acho que nem o rei do terror atual, Sr. Stephen King (te amo, vovô) seria o que ele é se não fossem esses pioneiros.
Isabela Torezan
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