Resenha de Meio sol amarelo
Chimamanda Ngozi Adichie entrou para a minha lista de “autores a conhecer” quando começou a aparecer mais na mídia, nesses últimos anos. Mas foi de uma maneira um pouco tênue, eu nem tinha chegado a adicionar algum livro dela na lista propriamente dita. Era mais algo como “uma hora vou ler”. Dei Hibisco Roxo de presente para uma amiga sem eu mesma ter lido nada.
Fui convidada então para um encontro do grupo de leitura Leia Mulheres, no qual iriam discutir Meio Sol Amarelo, da Chimamanda. Achei que era uma boa oportunidade para finalmente conhecer essa mulher que muita gente ama e comprei o livro em sociedade com a minha irmã, minha mini-feminista favorita.
O livro tem 502 páginas e eu tive exatos cinco dias para ler, até o dia da discussão, porque quis terminar a leitura em curso. Não gosto de ler livros com prazo, estraga a leitura, mas como estou em férias e com poucos prazos poluindo o horizonte, não foi um grande problema. O texto fácil e fluído ajudou, a leitura foi rápida. Mas esse é um livro que pouco rende texto como experiência ou relacionamento, como eu gosto mais de fazer. Não sei se isso é um defeito, mas talvez Meio Sol Amarelo me pareceu algo como um livro-modelo? Não sei se me expresso bem. O tipo de livro que um professor me mandaria ler e escrever uma resenha bem bonitinha daquelas com padrão de manuais de redação.
Tem todos os elementos de um bom romance de pano de fundo histórico-cultural: diversos personagens de estruturas variadas, descrições ricas de aspectos culturais, linearidade com acontecimentos históricos reais. Consegue despertar o interesse para o horror da guerra Nigéria x Biafra, da qual eu nunca tinha ouvido falar, mas que apresenta, aparentemente, os mesmos aspectos e problemas das tais “guerras civis africanas”, expressão que a escola usa para ocupar menos espaço nos livros didáticos, colocando a Nigéria e seus vizinhos no mesmo saco. Isso foi, sim, uma crítica, mas eu não sei se teria como exigir dos professores fazer de outro jeito. Acho, na verdade, que esse é um argumento para advogar pelo aumento da carga de literatura na escola: o que o ensino de história não der conta de cobrir, os alunos poderiam ao menos entrar em contato através de livros como esse, em vez de só “aprender” para escrever na prova. Impacta muito mais ler o sofrimento de Olanna para conseguir comida para sua filha doente em meio à guerra do que ler um relato frio de que o povo biafrense passou fome, simplesmente.
Para não parecer que eu achei que o único valor do livro é didático, registro que o trato dos personagens é algo que me interessou. Em outros livros, na verdade, seriam só personagens normais, mas o fato de que não consegui gostar de verdade de nenhum deles foi positivo. Em uma história que fala de uma guerra, horrível como qualquer guerra, se afeiçoar demais a um personagem faz o leitor correr o risco de achar que um lado (o do seu personagem) talvez esteja um pouco mais certo. E não vai estar, nunca. Claro, existe certo e errado do ponto de vista moral e político, sempre, mas para mim, a partir do momento em que alguém se autodenomina “lado” em uma guerra, errou em algum ponto. Chimamanda tem o cuidado de mostrar que todo mundo é um pouquinho horrível.
As descrições de aspectos culturais que já mencionei também são bem legais. Tirando a sopa de pimenta, não fiquei com vontade de comer nenhuma daquelas coisas, mas é interessante o quanto a variação da culinária é importante como elemento de diferenciação entre as tribos africanas que a exploração europeia achou que tudo bem tratar como se fosse tudo igual.
Minha última observação é uma aposta: pelo texto desse romance, eu aposto que Chimamada Ngozi Adichie é melhor contista que romancista, ou que vou gostar mais dos contos. Estou esperando alguém me presentear com No seu pescoço, então vou poder ver se acertei.
Isabela Torezan
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