É bonitinho, mas…

Resenha de O alforje

Sinceridade é tudo. Pouparei o leitor que vem em busca de uma indicação de livro legal e já adianto: eu não gostei do décimo primeiro livro, O Alforje, de Bahiyyih Nakhjavani. Se era ajuda na sua próxima compra de livros que você queria, pode parar de ler aqui. Mas eu vou escrever o texto de qualquer forma. Aliás, no momento em que você lê isso, ele já vai estar escrito há algum tempo. Se a curiosidade basta para motivar sua leitura, continue.

Não houve nada entre mim e O Alforje, esse foi o problema. Não sintonizamos, não teve química, não ficamos no mesmo plano de existência enquanto eu lia, tudo o que é necessário para gostar de um livro. Acho que a minha natureza cética pode ter atrapalhado: é um livro em que o misticismo ocupa boa parte das páginas. Na verdade eu diria que o místico é, de certa forma, a linguagem da autora, uma iraniana praticante da Fé Bahá’í que afirmou que não vê separação entre sua fé e sua arte. Longe de mim ter preconceito com religiões ou textos religiosos, mas esse modo de falar simplesmente não me atrai porque não faz sentido para mim.

Onde outro leitor talvez enxergasse uma bela reflexão inspiradora e até reveladora sobre a verdade e o sentido da vida, eu só vi um certo excesso de palavras. Em resumo, O Alforje conta a história de vários personagens cujas histórias são unidas por um elemento em comum, um alforje (é uma espécie de bolsa) cheio de uns papéis com escritos bonitos e misteriosos. Todos eles estão no deserto e são pessoas bem diferentes umas das outras, tem uma noivinha histérica e aparentemente com propensões ninfomaníacas que ela confunde com vocação espiritual, uma escrava judia amargurada, um ladrão, um peregrino, um cadáver… Todos parecem buscar uma tal de verdade e alguns deles acreditam ter encontrado isso escrito nos papéis do alforje. Pelo menos foi assim que eu interpretei, e como não acredito que exista verdade nenhuma, as várias páginas de reflexões espirituais de cada um dos personagens poderiam até ser interessantes, se o texto é bem escrito (ver parágrafo abaixo), mas me trouxeram zero carga de identificação pessoal.

Sobre o estilo do texto: a impressão que me deu foi que ela queria escrever no estilo de histórias orientais tradicionais, algo meio Mil e Uma Noites, mas acha isso muito difícil e não consegue segurar o texto assim por muito tempo, porque de vez em quando aparece um parágrafo ou outro de prosa perfeitamente contemporânea. Malba Tahan, que na verdade é o pseudônimo de um brasileiro, é mestre em mimetizar um texto que remete aos tempos de sultões e escravos. Bahiyyih não foi tão bem sucedida.

Como raramente uma experiência com um livro é totalmente ruim, termino com as alegrias de ter O Alforje em mãos. Era uma edição da TAG Livros, então era capa dura de cor cobre, papel pólen e ilustrações bonitas com páginas de início de capítulo em um lindo laranja vivo. Livro novo, pude cheirar sem medo de ácaros. E falando em cheirar, ele veio acompanhado de um singelo vidrinho de aroma para ambientes com cheiro de flor que está perfumando meu quarto. Sabe gente bonita e ruim de conversa? Então…

Isabela Torezan

 

 

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