Obrigada, Patti

Resenha de Só garotos

Eu ouvia Patti Smith às vezes, cantarolava Dancing Barefoot vez ou outra e achei interessante ela ter ido receber o Nobel do Bob Dylan. Mas não posso dizer que era apaixonada por ela. No kit da TAG de março (sim, mais uma vez), recebi seu Só Garotos e um outro livrinho, Devoção, que de diminutivo tem só o tamanho físico mesmo e que pretendo que seja o principal homenageado desse texto.

Como o melhor a gente deixa para o final, falo antes de Só Garotos. Acredito que definem como romance autobiográfico, ou romance de memórias (porque na verdade o personagem principal não é ela, é Robert Mapplethorpe). Mas acho que ela não tinha esse compromisso com o verídico, não descarto que um detalhe ou outro não seja exatamente memória. Mas é ótimo que não seja. Limitar o talento de Patti Smith para a escrita, engessando aquela delicadeza toda com a obrigação do factual, seria algo horrível de se fazer.

Patti é uma mulher, antes de mais nada, artística no melhor sentido da palavra. Ela canta, toca, compõe, escreve, desenha, pinta, fotografa. Tanta intimidade com essas várias formas fez dela alguém que tem um talento incrível para transmitir sentimentos, para se expressar. É impossível ler Só Garotos e não ter a consciência, mesmo que bem internamente, de que finalmente entendeu o que é uma ligação de verdade entre dois seres humanos. A relação entre ela e Robert mudou de forma exterior diversas vezes, mas permaneceu até o fim como uma comunhão rara. É algo muito bonito de se ler.

Agora, Devoção. É difícil explicar como uma coisinha tão pequena (124 páginas, formato de bolso) pode ser uma obra tão forte. Ao menos foi para mim, do ponto de vista do escritor. Devoção é a obra mais nova dela e tem somente três textos: dois que gravitam entre a crônica e o ensaio (o primeiro e o último) e um conto (o do meio). A genialidade dessa obra está em que ela forma um “sanduíche”: o primeiro e o terceiro texto falam do processo de escrita e dos momentos pelos quais ela passou enquanto escrevia o conto do meio, que é a história de uma patinadora. Uma história delicada e ao mesmo tempo brutal, com um ar de Lolita (mas melhor).

Para quem gosta de escrever, acompanhar Patti escrevendo no trem, visitando túmulos e tendo ideias em momentos inusitados é uma experiência sem igual. Cada escritor tem suas próprias maneiras de produzir, mas a sensação de pertencimento quando encontramos alguma coisa que “puxa, comigo é assim também” é muito, muito boa. Deixo aqui meu trecho favorito do livro, a título de ilustração do raciocínio:

“Por que eu escrevo? Meu dedo, como uma caneta de ponta seca, retraça a pergunta no ar em branco. Um enigma conhecido, proposto desde a juventude, quando eu me afastava das brincadeiras, dos companheiros e do vale do amor, cingida de palavras, um passo fora do grupo.

Por que escrevemos? Irrompe um coro.

Porque não podemos somente viver”

Essas são as últimas palavras do livro. Eu terminei Devoção, fechei, abracei o livro com força e disse várias vezes “obrigada, Patti Smith, obrigada”.

Isabela Torezan

 

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