Perturbados

Resenha de O fantasma da infância

Dos autores de que gosto muito, Cristóvão Tezza deve ser o que mora mais perto de mim. Coincidentemente, também é um dos autores de quem me sinto mais próxima no texto. Ao contrário do que se possa pensar a princípio, sentimento de proximidade não é indispensável para gostar do autor. Claro, se nada mais sobra no livro (texto bem escrito, estilo agradável, enredo interessante, fluidez ou qualquer outra qualidade), se identificar com a voz do autor pode ser a única coisa que salva a sua relação com a obra.

No caso de Cristóvão Tezza, que tem muitas qualidades, a proximidade é um atrativo a mais. Terminei O Fantasma da Infância, o terceiro livro que leio dele (depois de O Filho Eterno e Trapo). Gosto da sensação de que, se fosse eu escrevendo aquela história, teria feito mais ou menos do mesmo jeito. Não que eu ache que tenha todo o talento dele, não é isso. Mas eu consigo imaginar meu espírito escritor sentando para tomar um café com o espírito escritor do Tezza e os dois se entendo, falando a mesma língua e concordando em quase tudo.

O Fantasma da Infância é uma história original. O escritor André Devinne é um homem angustiado e ligeiramente perturbado (absolutamente normal, portanto) e acaba raptado por um velho completamente doido que fala coisas mirabolantes e, até onde é possível inferir, só quer que Devinne escreva. Devinne escreve, e há uma super tênue linha entre o que é realmente o seu passado transformado em memórias (histórias sobre uma já inexistente vida em família com sua amada esposa Laura e uma filha; a chegada de um amigo de infância portador de um segredo perturbador) e o que é ficção inventada para passar o tempo no cativeiro.

No fim, não importa muito identificar qual a parte a ser tomada como real e o que é história dentro da história. Para mim, a verdadeira história ali era uma só: a jornada do escritor. Precisamos ter sobre o que escrever, e esse o quê é sempre uma perturbação. Escritores são por excelência almas perturbadas. Se André Devinne teve realmente o passado que descreve, escreve para se livrar desses fantasmas (não só da infância). Se inventou tudo durante um sequestro, ou até mesmo se inventou o sequestro, escreve para se livrar da perturbação do cárcere, condição em que muitos perturbados vivem. Pode não ser um cárcere físico. André Devinne pode ser mais um dos muitos prisioneiros das próprias perturbações, e que escolheu representá-las com ironia na figura espalhafatosa do doidão do Doutor Cid.

Isabela Torezan

 

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