Antes puro

Desconfiou daquele raminho verde na rachadura da parede. Bem acima da cabeceira da cama, um broto com pequenos espinhos ainda inofensivos despontava na fratura da alvenaria branca, mas meio suja. Tentou puxar para fora, sem sucesso. A força do raminho era inacreditável. Mas era muito pequeno, quando deitava, ficava fora de seu campo de visão. Ao menos no começo.

Acordou um dia com um botão de rosa quase tocando seu nariz. Seria uma rosa branca, muito mais branca do que a parede, com certeza. Sentou na cama e o ramo, que agora não era um raminho mais, arranhou sua testa com espinhos adultos. Um fio vermelho escorreu por entre as sobrancelhas, desenhou uma linha no nariz e pingou no lençol.

Ele afastou o ramo e se levantou. Pegou uma faca na cozinha e tentou cortar a planta em vários lugares. O máximo que conseguiu foi arranhar o verde escuro e descobrir um verde mais claro por baixo, cortando os dedos nos espinhos diversas vezes. O lençol adquiriu uma alegre estampa nova de pontinhos vermelho-vivo. Ele desistiu e deixou o ramo pendente reinar sobre sua cama, uma estranha luminária sem luz.

Na noite seguinte, demorou muito para dormir. O botão branco quase brilhava no escuro, como acontece com as coisas muito brancas, e tinha um aspecto fantasmagórico, ameaçador. Dava a impressão de que a qualquer momento poderia crescer mais e mais, se mover.

Vencido pelo sono, ele dormiu. E sonhou. Sonhou que corria fugindo de algo que não via, tropeçava numa pedra e caía dentro de um tanque cheio de pregos. Ele nadou nos pregos tentando sair e quanto mais se mexia, mais afundava neles, as pontas de metal fininhas penetrando cada centímetro do seu corpo.

Por fim acordou. E se viu todo envolto em camadas sucessivas de ramos verdes e vivos, os espinhos todos meio enfiados na carne, os fiozinhos vermelhos escorrendo de todo lugar agora e molhando, bem devagar, o lençol. Tentou gritar, mas sua boca também estava coberta por uma parte do ramo, uma sequência de espinhos furando os lábios em uma mordaça delicada.

Durante todo o dia esteve ali, deitado, sentindo a dor de mil espinhos penetrando (cada vez mais?) sua pele, sem poder reagir. Quando finalmente escureceu, o botão branco, pendurado sobre o seu peito, esticou-se num crescimento dolorosamente lento. Tocou o tórax, ele sentiu a pressão, e o botão mergulhou de repente na carne com uma fúria vegetal, trocando o branco pelo vermelho. Vermelho vivo, mas ele estava morto.

Isabela Torezan

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