Passado, presente, futuro

Resenhas de Fahrenheit 451, Na natureza selvagem e Um, dois e já

Já escrevi antes sobre como acho importante o caminho que um livro fez para chegar até você. A meu ver, a experiência de leitura sempre é influenciada por isso. Eu e Alanis combinamos uma troca de livros – emprestei Os Luminares, A Árvore dos Desejos e Eu, Robô  – e assim tive em mãos Fahrenheit 451, que há muito queria ler, e também Na Natureza Selvagem, que conhecia mas nunca tinha pensado em ler, e o pequenino Um, Dois e Já, do qual nunca tinha ouvido falar. Decidi resenhar todos de uma vez para não perder a magia do fato de que emprestei todos juntos e fazia muito, muito tempo que não fazia uma troca de livros assim (oi, obrigada, Alanis).

Li primeiro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Adoro ficção científica e histórias sobre futuros distópicos em geral, mas essa é especial. Os livros, meu objeto de adoração suprema, são um elemento crucial da trama, que se desenvolve num futuro em que os bombeiros tiveram sua função invertida e trabalham queimando, em vez de apagar incêndios. Aqueles que são denunciados por terem em casa exemplares dessa coisa perigosa e subversiva que é o livro têm sua coleção queimada pela equipe de bombeiros equipada com suas mangueiras de fogo.

O texto é muito fluido e bom de ler, é confortável acompanhar a evolução de Montag, o personagem principal, de sua insatisfação com a vida para o estágio de percepção avançada em que resolve se revoltar contra aquele sistema de incendiários doidos. Senti pena de ler Montag tão infeliz e não poder entrar na história e levar uma sacola de livros para ele, que nem levei para a Alanis. Tenho certeza de que toda aquela angústia seria resolvida com uma biblioteca.

Mas é assustador o quanto algumas coisas desse futuro distópico acontecem já agora, no nosso presente distópico. Aquilo que já foi muito bem explorado por Black Mirror, uma série que adoro também e que já cansaram de analisar e resenhar por aí. A mulher de Montag é presa e anestesiada pelas telas múltiplas que fazem parte do seu dia a dia (na verdade elas são o seu dia a dia). Ela se envolve mais com pessoas virtuais do que com o próprio marido. As pessoas são vigiadas. Qualquer uma dessas coisas poderia ser uma descrição dos dias de hoje.

Dessa narração ampla de todo um mundo futuro decadente passei para a leitura do que chamei de livro-micro-cosmo. Um, Dois e Já, de Inés Bortagaray, é pequenininho no formato e também na amplitude da narrativa (uma viagem de carro em família). Mas muito grande na qualidade de texto. A sensibilidade descritiva dela é incrível, eu quase ouvia o barulho da estrada enquanto lia, sensação que é intensificada pela história em primeira pessoa no tempo presente.  Terminei o livro com a memória dessa viagem gravada, como se eu realmente tivesse passado por aquilo tudo. O fato de que já vomitei em uma viagem de carro, como a personagem, e que outros elementos como os postes passando e virando borrões também já estiveram presentes em momentos que realmente vivi, contribuíram bastante para esse realismo. Tomei esse livro como uma aula de criação na escrita.

Por fim, li Na Natureza Selvagem. Acho que a gente enxerga numa história o que mais quer enxergar, e eu vi deslocamento e solidão gritantes nesse livro. Mas imagino que seja o que a maioria dessas pessoas enxerga. Por ser uma história real, baseada em pesquisas, não ficamos sabendo as razões concretas que levaram Alex a se isolar no Alasca e lá sucumbir. Só daria para saber isso entrevistando o próprio, o que não é possível fora da ficção. Fica a cargo do leitor imaginar o que se passava na mente desse rapaz. Eu simpatizei muito com o que se sabe de Alex McCandless, mas também tive muita pena da sua utopia. É bonito e triste ao mesmo tempo como ele parecia acreditar que seus problemas seriam resolvidos ficando longe da civilização, de outras pessoas. Ora, grande parte dos problemas da vida são mesmo os outros. Mas sou da opinião de que somos nossos piores algozes. Alex jamais poderia se livrar dele mesmo, se isolando. Suicidando-se sim, e acho que é por isso que essa é uma das possibilidades levantadas no livro.

Apesar de trazer uma história triste, não achei que seja um livro triste. Tem bastante cara de reportagem e preocupação em detalhar os testemunhos de gente que conviveu com Alex (ou Chris, seu verdadeiro nome). Há relatos de outros sujeitos que fizeram o mesmo que ele, o que também diminui um pouco o caráter ficcional e emotivo da história. Um romance contaria somente a história de Alex e focaria nas suas motivações. Mas acho que isso é um mérito e tanto do livro, contar a história real sem romantizar demais. Grandes livros do jornalismo literário como A Sangue Frio (que gosto, aliás) não fizeram isso, me lembro de ter quase chorado a morte do assassino como se ele fosse um personagem da minha série favorita.

Um futuro distópico surreal (será?), um presente atemporal que é ao mesmo tempo pessoal e de todo mundo e um passado pessoal real. Minhas leituras números 16, 17 e 18 do ano formam um tríade perfeita e muito agradável de passado, presente e futuro. Espero que tenha sido uma coincidência, adoro coincidências.

Isabela Torezan

 

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