Eleanor

O táxi andava devagar por causa do trânsito do horário de pico. Muito devagar para o seu passatempo favorito quando andava de carro: observar as luzes dos postes e dos letreiros ficarem borradas pela velocidade. Era muito interessante observar os pontos de luz se transformando em manchas fantasmagóricas. Às vezes, ela semicerrava os olhos para intensificar o efeito.

Mas hoje nem isso adiantava. O carro estava a menos de 30 km por hora, quando não parado. Sábado à noite, metade da cidade devia ter tido a mesma ideia que ela, de ir lavar o estresse da semana em algum bar ou restaurante ou cinema ou shopping ou qualquer diversão do ser humano urbano capitalista. Na verdade, ela não sabia por que tinha saído de casa. Sua concepção de lavar o estresse era sentar na poltrona com uma dose de whiskey ( e a garrafa do lado para reabastecimentos necessários) lendo algum livro. Mas quando viu, já tinha chamado o táxi. Tem coisas que não temos a menor ideia de porque fizemos. São geralmente as coisas das quais nos arrependemos depois.

A lentidão do trânsito permitia a observação detalhada das calçadas, atividade à qual ela se entregou, já que não podia brincar com os efeitos ópticos dos postes. Uma noiva arrastando um véu enorme pela grama já meio úmida pelo orvalho noturno posava para fotos na praça. Mesmo de longe, ela pode ver como a moça sorria. Ela sorria até mesmo quando o fotógrafo estava ocupado regulando a câmera, sorria para o noivo que tentava evitar um estrago maior no véu, sorria para as madrinhas gordas apertadas em seus vestidos coloridos que saltitavam em volta do casal. Casamentos. Ela nunca gostou deles. Mas via como era iluminada aquela cena, mais do que seus postes em fast forward.

Encostou o rosto na janela fria do carro, fechando os olhos para o mundo que passava lá fora. Pegou o celular e conferiu o rosto no reflexo da tela apagada. Levantou a mão num gesto para arrumar o cabelo e desistiu. Para que, afinal. Para quem. Olhou os próprios sapatos escolhidos com dificuldade e se sentiu ridícula por se arrumar.

Pensou em pedir para o táxi dar meia volta e terminar com aquilo que claramente tinha sido um erro. Mas a indisposição em falar com o taxista falou mais alto e ela desceu na frente do bar com um estranho peso de senso de obrigação. Entrou e sentou no balcão, pediu uma bebida para um barman carrancudo e de poucas palavras. O som ambiente era ensurdecedor. A decoração futurista com luzes neon e mesas e assentos em acrílico colorido não ajudava o desconforto. Tomando pequenos goles, ela espiou o resto do lugar por cima dos ombros.

Um cara mais velho monopolizava um diálogo com uma mocinha muito maquiada numa mesa no canto, duas mulheres se beijavam na mesa vizinha, um grupo aparentemente comemorava um aniversário na seguinte. Um moço magrelo e usando um coque escrevia num iPad colocado ao lado de um enorme copo de chope. “Hipsters”, ela pensou, sem conseguir evitar um ligeiro sentimento de desprezo. Provavelmente escrevia poesias que ninguém ia ler. Ele usava bermudas bege e meias bordadas em um padrão geométrico e parecia totalmente absorto na sua atividade. Ela voltou a encarar o barman carrancudo.

Quando acabou o que estava bebendo, achou que já estava na hora de terminar com aquela aventura (anti?) social nonsense e resolveu voltar para o conforto do seu lar, de onde não deveria ter saído. O que passou pela sua cabeça, afinal, quando decidiu que iria sair no sábado à noite? Ela esperava que alguma coisa diferente acontecesse? Olhou seus companheiros de recinto totalmente imersos em seus próprios mundos coletivos e teve certeza de era para a porta que ela deveria ir. Pagou e saiu no ar frio da noite.

As calçadas estavam repletas de gente, na frente dos outros bares, todos compartilhando a aparente alegria de bem aproveitar uma noite. Ela saiu andando em meio à aglomeração, tentando achar um lugar mais vazio onde poderia parar um táxi. Um casal abraçado levantou de repente de uma mureta num canto meio escuro e quase trombou com ela no meio da calçada. Ela pediu desculpas instintivamente, mas os dois já tinham bebido bastante e só conseguiam rir. “Ahahaha… Nossa, moça, de onde você veio?? Mor, ela surgiu do nadaaahahahahahaha” e cambalearam até um outro grupo de casais encostado na parede mais para frente.

Sentindo mais do que nunca a já conhecida sensação de despertencimento, ela parou um táxi e deu o endereço de casa. Dessa vez fechou os olhos e só abriu quando ouviu a voz do taxista falando o preço. Deixou os sapatos na entrada, tomou água, tirou a roupa toda e fechou a porta do quarto, onde seu nome, Eleanor, estava escrito numa plaquinha que ela tinha desde criança. Deitou na cama sem ânimo de vestir pijama e dormiu o sono tranquilo das pessoas solitárias.

Isabela Torezan

 

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