Parem de perguntar o porquê

Eu falo que festas são assustadoras e me acusam de antissocial. Vou contar aqui a história de uma festa em que fui, e quero ver alguém me acusar disso de novo. Foi, por motivos que ficarão óbvios, a última festa da minha vida. Era aniversário de alguém aí, e fui convidado mais para fazer número do que por ser amigo mesmo do aniversariante. Eu já odiava festas, mas decidi ir porque estava determinado a encontrar uma certa pessoa que eu sabia que ia. Infelizmente essa certa pessoa não tinha nada a ver comigo e adorava festas, não perdia uma. Sentimentos pregam essas peças na gente. Mas não é esse o assunto da história.

Fiz questão de chegar bem atrasado, para entrar despercebido. Caso eu estivesse usando uma roupa inadequada, a chance de repararem era menor. Outros portadores de insegurança entenderão do que falo. Tocava uma música eletrônica em altíssimo volume e eu imaginei quanto tempo ia demorar para alguém vir reclamar do som: era na cobertura do prédio. Visualizei as bebidas sendo distribuídas num canto e peguei uma garrafa de cerveja, mais para compor meu disfarce de apreciador da festa do que qualquer outra coisa. Meu estado de espírito pedia alguma bebida destilada e forte em quantidade suficiente para me deixar semidesmaiado em um sofá olhando o teto e remoendo paranoias, e não aquela coisa sem graça, fraca e cheia de gás que é cerveja.

A pessoa que eu tinha ido procurar não estava visível em lugar nenhum, aparentemente. Demorou uns dez minutos para eu perceber que ela era a moça prensada contra a parede por um armário humano que estava praticamente engolindo ela, meio pendurada nele com as duas pernas. Dei minha cerveja para uma menina que veio cambaleando e rindo e que parecia ser a pessoa certa para ingerir mais um pouco de álcool e fui me encostar numa parede oposta. Fiquei observando os diferentes movimentos de corpos espalhados pelo salão, tentando não ver aquilo que, no fundo, eu sabia que veria, mas que não tinha me impedido de vir na festa sofrer. Na verdade eu adoro sofrer, cheguei a essa conclusão. Quando já tinha explorado visualmente todos os cantos da festa, aconteceu.

O som começou a mudar. Muito sutilmente, mas eu conseguia perceber a mudança. Procurei pela sala a origem da música e enxerguei um celular perto de uma das caixas amplificadoras: aparentemente o Spotify regia a festa. Fui até onde estava esse celular, prestando atenção na música, que eu sentia mudar cada vez mais. Eu não sabia explicar o que, mas parecia que o som ficava mais intenso. Ninguém mais parecia perceber, continuavam dançando como antes, ou parados como antes. Ou beijando como antes.

Porém, quando cheguei perto do tal do celular e mexi nele, a tela indicava que a música que tocava no momento era um funk qualquer. Uma música que eu (infelizmente) conhecia e tinha certeza de que não era a que saía das caixas de som.

De repente, a mudança no ritmo do som se completou e eu soube disso de um jeito estranho. Senti meu corpo preso a alguma coisa invisível e meus braços se moveram para o alto sem que meu cérebro tivesse controlado esse movimento. Ao mesmo tempo, todas as outras pessoas da festa fizeram o mesmo. Dezenas de braços levantados para o alto juntos, em sintonia. Meu amor impossível e seu armário humano tinham levantado os braços também, encarando um o outro com um olhar besta.

E a coisa continuou. O próximo movimento foi abaixar os braços e mover o quadril para um lado, eu senti meu corpo fazer isso completamente contra a minha vontade, e aparentemente todo o resto da festa fez o mesmo. Logo estavam todos unidos numa dança sincrônica bizarra e bastante macabra. Dezenas de cabeças viram para a esquerda. Depois para a direita. Dezenas de braços esticados para um lado. Recolhidos. E continuou em uma sequência de movimentos envolvendo o corpo todo e minha angústia foi crescendo por não conseguir interromper aquilo.

Provavelmente todo mundo estava tão angustiado como eu, mas eu não conseguia ver, porque não podia olhar para onde queria. E aquele som estranho tocando de uma fonte desconhecida. Nunca danço em público e faço pouco exercício. Logo eu estava morrendo de cansaço e queria desesperadamente parar, mas não conseguia recuperar o controle sobre mim mesmo. O exército de zumbis dançantes também me assustava.

O que me salvou nesse dia foi o ciúme. Única ocasião na minha vida em que ciúme foi útil, aliás. Em determinado momento, a força musical que governava o ambiente me obrigou a girar o corpo, junto com todo mundo, para o lado da sala em que armário humano estava babando saliva na minha impossível, e vi os dois ainda quase grudados. Uma outra força veio subindo de dentro de mim até a cabeça e lutei alguns minutos até conseguir mexer as mãos na direção que me interessava e tapar ambos os ouvidos. Quando deixei de ouvir o som alto, imediatamente senti meu corpo livre outra vez.

Pensei em chutar as caixas de som e heroicamente salvar todo mundo da hipnose dançante, mas olhei o armário humano de novo e mudei de ideia. Pressionando as mãos com força sobre os ouvidos, saí correndo do salão e apertei o botão do elevador com o cotovelo. Quando cheguei lá embaixo, passei correndo pelo porteiro dormindo e ganhei a rua, agora já sem me impedir de ouvir.

No dia seguinte, procurei nos jornais a chamada que sabia que ia encontrar.

Jovens encontrados mortos em cobertura no centro da cidade.

Mais de 50 pessoas faleceram em uma festa na madrugada de hoje; suspeita inicial é de morte súbita por esforço físico excessivo.

Eles dançaram como se não houvesse amanhã.

Isabela Torezan

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