Quero descer

Essa demora é ainda pior por causa desse frio do caralho que resolveu fazer de repente, onde já se viu, saí de casa só com essa jaqueta. Bem que minha mãe falou, coloca a outra, mais quente, vai esfriar; e eu, que nada, olha esse sol; mas você vai ficar na rua até tarde; relaxa mãe. Dito e feito. Se mãe fala que vai esfriar, vai, nem que a previsão do tempo tenha dito quarenta graus e sol a pino o dia todo. Então aqui estou eu agora, onze e meia e congelando nesse ponto de ônibus vazio e sinistro, esperando essa porra de ônibus que não vem. Preciso tomar cuidado para não chegar em casa xingando assim, minha mãe odeia. Epa, chegou. Estranhamente cheio. Tá, cheio não. Mas dá pra ver que tem gente demais pra esse horário. Esquisito, sabe. Mas pra que achar ruim, melhor isso do que o ponto vazio sinistro, com certeza. Dou o dinheiro pro motorista, essa hora não tem cobrador. É uma gente estranha essa que tá no ônibus. Um monte de velho, velho andando de ônibus essa hora? Tem só uma criança, e sozinha. Uma moça e um rapaz, tô vendo no fundo. O resto é velho. Vou sentar nesse assento vazio aqui na frente mesmo, não quero chegar muito perto desse pessoal esquisito. Ninguém conversa, um silêncio. Será que não tem ninguém que se conhece andando junto? Umas vinte pessoas resolveram tomar ônibus sozinhas essa hora da noite. Tudo tá estranho. Vou vendo a cidade passar pela janela, as ruas vazias ficam bonitas, eu acho. Beeeeep. O som da campainha de pedir pra descer. Olho pra trás. Ninguém se mexeu. Todo mundo ainda olha pra frente, cada um num assento, sem expressão no rosto. Se alguém tivesse levantado para puxar a cordinha, eu teria visto quando me virei, não teria dado tempo da pessoa sentar de volta. Volto a olhar pra frente. O ônibus tá freando. Parou no ponto. Olho pra trás, mas ninguém se mexe. Na verdade, tão olhando pra mim. A porta fica aberta um tempo. Fechou, o ônibus volta a andar. Vou sentar de lado aqui, não quero perder esse pessoal estranho com olhar zumbi de vista. Beeep. A campainha de novo. DESSA VEZ EU VI, ninguém puxou nada. A campainha tá tocando sozinha. Quero que chegue no terminal logo, tô achando isso tudo muito assustador. Freando outra vez. A porta abriu. Meu deus, um dos velhos levantou. Não, não pode ser. Esse é….é…..o tio Antonio! Morreu na construção da casa da vó! O tijolo. Que caiu na cabeça dele. Ele tá vindo aqui, socorro. O tijolo ainda tá na cabeça dele, que coisa horrível. Meu deus preciso correr daqui. Não consigo me mexer. Essa mão do tio Antonio no meu braço. Morto mesmo, que mão fria. Atirado pra fora do ônibus pelo meu próprio tio morto, o que tá acontecendo meu deus. Olho pra trás. A porta fecha, o ônibus volta a andar. E desaparece. Simplesmente não tem mais nada na rua. Tudo vazio de novo. Continuo sentado na calçada, meu queixo sangrando porque caí de cara. Vou a pé pra casa agora, nem que chegue no almoço de amanhã. Odeio pegar o ônibus errado, preciso prestar mais atenção no letreiro da próxima vez.

Isabela Torezan

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