Era para ser um segredo muito bem guardado. Digno da honra de todas as teorias conspiratórias que o pessoal adora. Na verdade, se pensar bem, foi mesmo bem guardado, porque os astronautas estadunidenses foram os primeiros a pisar lá e ficaram quietinhos. E olha que o povo daquele país tem um gosto por se exibir e essa era a oportunidade perfeita.
Se não fosse aquele meteorito trombando lá meio que inesperadamente, talvez até agora fossem poucos os terráqueos que soubessem disso. Quando comecei a trabalhar aqui no observatório, a informação era tida como uma lenda entre os novatos. Uma coisa que os veteranos contavam para ver se a gente caía por ser novo e bobo. Eu sabia desse tipo de pegadinha e tomei a coisa como uma. Só depois de cinco anos tomando o café com gosto de queimado desse lugar de doidos é que fui ter acesso aos documentos que provavam que na verdade não era pegadinha coisa nenhuma.
E quanto ao meteorito, quase que poderíamos ter feito alguma coisa para desviar a rota ou destruir, creio eu, se tivéssemos previsto ele antes. Era bem pequeno. Mas foi suficiente. Era meu dia de folga e eu estava no telhado com a minha Bianca, tentando ensinar a ela os nomes das estrelas e constelações. Bianca tem cinco anos e eu sei que espero demais dela. Mas acho mais importante do que aprender inglês cedo, por exemplo. Eu apontava a Ursa Maior e tentava fazê-la repetir o nome quando PAF um pedaço de uma coisa branca caiu bem no rostinho compenetrado dela. Bianca começou a chorar e só parou quando a mãe apareceu raivosa na escada e a levou embora do telhado. Brava porque detesta que eu leve a menina lá em cima, minha mulher nem viu que eu segurava um pedaço de queijo.
Foi só elas entrarem em casa que a coisa piorou. Em dez minutos meu telhado e quintais estavam cobertos de queijo minas frescal. Os telhados e quintais vizinhos também, e me diverti vendo quem percebia o que estava acontecendo e saía para checar. Ri das caras de espanto. Muitos pegavam um pedaço no chão, cheiravam, alguns (os menos higiênicos) experimentavam um naco e depois olhavam para cima, incrédulos, como se esperassem que a Lua fosse confirmar a ideia absurda que eles estavam tendo.
O jornal que eu assino estampava, na manhã seguinte, uma foto de um senhor na varanda de casa, segurando uma tigela de vidro cheia de troços brancos. A manchete dizia:
Lua é feita de queijo fresco
Abalo provocado por meteorito desmascara anos de segredo de astrônomos
E foi assim que nós, o pessoal que entende de espaço, perdemos a chance de ter um estoque vitalício de queijo só para a gente. Agora já tem um monte de gente falando em excursões de coleta. E a Bianca não quer mais voltar no telhado comigo.
Isabela Torezan
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