Encontrei

Eu tinha perdido algo, mas não sabia o que. Já acordei me sentindo incomodado, achei que tinha perdido uma meia na cama, coisa que odeio, mas esfreguei um pé no outro e constatei que ambas as meias continuavam em seu devido lugar. Então pensei que podia ter perdido a hora, mas lembrei que era domingo.

Depois cogitei ter perdido a fome, mas devorei três ovos mexidos, duas canecas de leite com café e metade de um bolo de maçã no café da manhã. Então pensei nos meus pais e entrei em pânico. Liguei imediatamente para a casa deles, o telefone tocou por angustiantes longos minutos, até minha mãe atender com voz sonolenta. Respirei aliviado.

-Oi, filho.

-Oi, mãe. Tudo bem com vocês?

-Tudo. Eu estava dormindo, aconteceu alguma coisa? É bem cedo ainda, e é domingo.

-Não, não, comigo tudo bem.

-Hum, certo. E então?

-Então o quê?

-Porque ligou agora?

Lembrei que minha mãe sempre foi boa em encontrar coisas.

-Mãe, acho que perdi.

-Perdeu? Perdeu o quê?

-Então, não sei. Mas tenho certeza de que perdi.

Escutei um suspiro do outro lado da linha.

-Ah, olha, tenho certeza de que você encontra. Vou voltar pra cama. Mais tarde te ligo pra saber se encontrou, tá? Beijos.

Às vezes eu acho minha mãe meio impaciente comigo. Mas só às vezes.

Tomei então uma resolução corajosa: decidi procurar. Embora eu ainda não soubesse o que, sabia que, quando encontrasse, iria saber. Só não podia ficar o domingo inteiro sentindo aquele incômodo. Comecei pelo lugar onde mais perco coisas em casa, o sofá. Eu me arrependo imensamente de ter comprado esse amontoado de espuma balofo. Ele adquiriu várias dobras no tecido depois de alguns meses sustentando meu peso e lembra ligeiramente aqueles cachorros pug de cara enrugada. O resultado é que coisas somem nas dobras, desde pequenos amendoins até meu celular ou o controle remoto da TV. Já perdi nele uma daquelas mini garrafas de whisky, acabei sentando em cima e tive sofá aromatizado com whisky por uma semana.

Minha incursão no sofá me trouxe de volta uma revista de decoração de interiores do ano anterior, uma colherinha de chá e uma bolota embolorada de algo que algum dia foi uma coisa de comer, mas já não dava mais para identificar o que era. Nenhum desses itens era o que eu procurava, porque continuei com a maldita sensação. Parti então para o segundo sumidouro de coisas da minha casa: gavetas.

As gavetas da escrivaninha estavam vazias, sinal de que eu tinha guardado tudo no lugar errado e provavelmente espalhado as coisas que deveriam estar ali pelas outras gavetas da casa. Um dia minha mãe veio me visitar e achou o grampeador de papel junto com os talheres, por causa de um dia que estava grampeando contas e boletos (uma tentativa de organizar) e senti o cheiro do arroz queimando, daí saí correndo e no fim acabei guardando o grampeador na cozinha. Eu faço bastante esse tipo de coisa. Acho que aparento ser uma pessoa bastante desorganizada, e sou. Não me orgulho disso. Mas estou acostumado a perder coisas, e a sensação daquele domingo era tão forte e incômoda que afetava até um perdedor profissional como eu.

As gavetas da cozinha, como eu esperava, estavam cheias. De tudo. A solução foi virar todas no chão e passei horas triando objetos, nenhum deles me livrando da sensação. Quando achei uma nota de dez reais no meio dos panos de prato, me veio a ideia: e se eu tivesse perdido dinheiro? Saí correndo procurando meu celular. Chequei o app do banco e felizmente minha conta continuava no azul. Minha poupança ainda ostentava o débil número que representa minhas suadas economias. Voltei às gavetas.

Achei várias coisas de que não me lembrava nas gavetas do quarto, mas ainda sem sucesso em parar a sensação. Sentei, exausto, no sofá balofo. As horas passavam e a sensação só piorava, eu tinha me esquecido de almoçar e minha cabeça doía de fome. Já eram três da tarde. Peguei um resto de sopa na geladeira, esquentei, comi. Eu me sentia fracassado e ainda por cima desprezado porque minha mãe tinha se esquecido de me ligar como prometera.

Olhei pela janela e vi que uma tempestade se formava. Eu tinha passado mais da metade do dia procurando algo perdido dentro de casa, mas e se tivesse perdido lá fora? As chances eram menores, considerando esse período de quarentena em que só saio de casa para ir às compras, mas ainda assim podia ser. Resolvi sair e fazer meu caminho até o mercado, duas ruas abaixo. Se eu me apressasse, talvez conseguisse voltar antes da chuva.

Peguei uma sombrinha, por via das dúvidas, calcei tênis e vesti a máscara. Estava quase na porta quando meu celular tocou. Era um amigo com quem não falava há algum tempo e resolvi atender. Eu não costumo atender telefonemas, na verdade, a não ser que sejam meus pais. Geralmente deixo a pessoa desistir e mandar mensagem de Whatsapp, que eu respondo quando quero (se não for áudio, que me recuso a ouvir).

-Oooi. Quanto tempo, hein.

Um dos motivos pelo qual não gosto de atender telefone: ter que responder, falando, esses começos de conversa idiotas.

-Pois é. Tudo bem com você?

-Tudo, e aí? Seus pais estão bem?

-Tudo, todo mundo bem. Sempre checo se eles estão ficando quietos em casa.

-Ah, é bom mesmo. Os meus têm dado trabalho.

Silêncio constrangedor. E então ele falou de novo:

-Pedro? Você vai achar estranho, mas te liguei na verdade pra perguntar uma coisa.

-Hum? Fala.

-Você ainda escreve?

No momento em que tentei responder a essa pergunta, pareceu que tudo parou. A sensação, aquela sensação que tinha me atormentado o dia inteiro, de repente ficou mais física e virou uma bola no estômago que me fez largar o celular e ir correndo para o banheiro, achei que fosse vomitar. Mas respirei fundo e não aconteceu nada. Lavei o rosto e, esquecido do amigo que provavelmente falava sozinho do outro lado da linha, fui para o meu quarto, que parecia o lugar certo para estar no momento. Em cima da cama, meu computador ainda estava aberto, eu tinha dormido assistindo uma série na noite anterior.

Apertei o botão de ligar, esperei, ansioso,  a inicialização lenta do meu velho notebook, puxando as linhas da colcha da cama. Abri um documento novo do Word e escrevi por meia hora, parando umas poucas vezes.

Agora estou prestes a colocar um ponto final nessa história sobre o domingo em que percebi que tinha perdido a inspiração para escrever, e encontrei depois de muito procurar nos lugares errados. Eu preciso ser uma pessoa mais organizada.

Isabela Torezan

 

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