Pombas

Hoje está muito frio. Só sei disso já porque olhei a temperatura no celular: 6°C. Aqui embaixo de dois cobertores e um edredom deve estar uns 37°C. Eu não quero tirar meu braço para fora nem para beber água, e estou com sede. São seis horas, e eu deveria levantar e trocar de roupa, um dia de trabalho me espera. Seria ótimo se alguma boa razão para eu não sair daqui de manhã surgisse de repente e me obrigasse apenas a alcançar o celular para avisar meus chefes por mensagem. Sou muito grato por ter um emprego, mas manter aquele escritório limpo todo dia é extenuante. O lugar é enorme e aquele pessoal parece ter um gosto especial por deixar copinhos de plástico usados nos lugares mais inusitados, e eu tenho que recolher tudo antes que o seu Almeida veja, ele odeia “sujeira” mesmo que não sejam coisas exatamente sujas. Tem uma moça lá que mastiga os copinhos, toda vez que recolho um meio roído sei que foi ela. Eu realmente não entendo porque eles não podem simplesmente colocar no lixo, tem um cesto embaixo de cada mesa. Deve ser para sentir que estão empregando bem o dinheiro do meu salário.

Uma pomba começou a bater na janela. Tac tac tac. Torci o pescoço para enxergar: o bichinho batia no vidro com um copinho plástico. Coitadinha, pensei. Deve achar que serve para fazer ninho. Tenho pena dos bichos se confundindo com o lixo que a gente produz, já chorei com aqueles vídeos de tartaruga que engoliu sacola de plástico. A pomba insistia, batia insistentemente no vidro com o copinho. A curiosidade me tirou do meu próprio ninho fofo e quentinho e levantei, fui até a janela.

A pomba batia cada vez mais forte, se não fosse um copo de plástico eu ia ter medo de o vidro quebrar. Minha janela é daquelas que abre só metade, deslizando a parte de baixo para cima. Levantei o vidro devagar, a pomba deu dois pulinhos para trás no pequeno suporte de cimento que tem embaixo da janela, e quando tinha espaço suficiente, entrou. Ei, pomba, falei. Não tem nada para você aqui dentro. Ela largou o copinho no meu tapete, pulou de volta para a janela e saiu voando. Fechei a janela imediatamente, meu rosto já ardia com o frio que veio de lá de fora.

Peguei o copinho e joguei no cesto do quarto. Que pomba doida. Resolvi me trocar e parar de esperar um sinal do além de que eu não devia trabalhar, eram seis e dezessete e se eu me apressasse ainda poderia chegar no horário. Graças à pomba eu já tinha perdido boa parte do calor que me mantinha preso na cama. Peguei meu uniforme e já me arrastava em direção ao banheiro quando meu celular vibrou com uma ligação. Senti mal estar no estômago mesmo estando de barriga vazia: era o seu Almeida. Meu horário é sete horas, não era possível que ele estivesse querendo me apressar.

-Alô, bom dia, seu Almeida.

-Jean? Está a caminho?

Meu deus, que chefe insuportável.

-Ahmmm, sim senhor, em um instante estou aí.

Odeio mentir, minha voz muda.

-Não! Quer dizer, pode voltar. Não precisa vir agora, não vai ficar ninguém aquiAAAI!

Um som de algo colidindo se misturou ao grito do seu Almeida.

-Seu Almeida? Tudo bem com o senhor?

-Oi, tudo, foi uma das malditas pombas. Escuta, aconteceu algo aqui, algum irresponsável deixou as janelas abertas e o escritório está infestado de pombas voando pelo lugar todo. Elas estão pegando todos os copinhos plásticos e levando embora, chega mais pomba o tempo todo. Tá cheio de bosta de pomba aqui, um horror. Te liguei porque nem adianta vir aqui agora, não vai conseguir limpar nada  com esse monte de coisa voando aqui. O Márcio vai ficar vigiando na câmera pra mim e te avisa quando elas forem embora, pra você vir limpar pra amanhã.

Minha cama nunca pareceu tão convidativa. Sei que vou ter trabalho dobrado depois, limpando cocô de pomba, mas eu penso no curto prazo e vou aproveitar o fato de que não preciso sair daqui nesse frio. Estou pensando em fazer um comedouro para pombas na sacada.

Isabela Torezan

 

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