Resenha de Guerra e Paz
Um livro nunca é o mesmo, porque somos leitores diferentes já uma semana depois. Metade do que é um livro pode sim, ser meio imutável: é a parte que cabe ao escritor. Mas a outra metade, que é como os leitores o leem, isso muda o tempo todo, porque as leituras são múltiplas no tempo e no espaço. É por isso que releitura faz sentido.
Antes de o mundo começar a se parecer com um apocalipse zumbi, decidi reler Guerra e Paz, do Tolstói. Depois descobri que mais pessoas resolveram enfrentar as muitas mil páginas do clássico russo para aproveitar o tempo extra que veio com a suspensão de trabalhos e o isolamento. A essa altura eu já estava na metade do primeiro volume (tenho a edição da CosacNaify) e fiquei feliz que talvez esses tijolos literários estivessem ajudando a manter a saúde mental de leitores por aí.
Li Guerra e Paz pela primeira vez quando tinha quinze anos, nas férias de julho do primeiro ano do colegial. Passei duas semanas deitada lendo, interrompendo apenas para as necessidades vitais. Na época, boa parte do que eu lia ainda era escolhido com base na minha pressa em ler tudo que fosse “importante” ler antes de morrer, e escolhi Guerra e Paz simplesmente porque me parecia essencial ser uma pessoa que leu Guerra e Paz. Eu fui uma adolescente arrogante à minha maneira.
Hoje, livre da ideia ridícula que é achar que existe uma lista quase sobrenatural de livros importantes, minhas escolhas de leitura são muito mais orgânicas e menos racionais. Com “orgânicas” quero dizer que o que baseia minhas escolhas é principalmente o que eu sinto que devo ler no momento, auxiliado por fatores externos como promoções de ebooks da Amazon. Quando terminei minha primeira leitura de Guerra e Paz, me senti esmagada por um turbilhão de sensações que a maioria dos outros adolescentes tirava da vida real e eu tirava dos livros. Estava ao mesmo tempo emocionada por ter lido algo tão bem escrito há centenas de anos, feliz por conhecer pessoas tão legais como aqueles personagens, apaixonada pelo príncipe Andrei, deprimida porque o livro acabou, com raiva da estupidez da guerra, com ciúmes de Natasha e com vontade de ser amiga de Sônia. Vivi tudo isso intensamente e guardei a memória de uma leitura absurdamente impactante e, por muito tempo, falar de Guerra e Paz me dava um pouquinho de vontade de chorar.
Sabendo que nunca somos os mesmo leitores anos depois, eu já não esperava ser impactada de mesma maneira na releitura. Já fui releitora compulsiva (li a série Harry Potter inteira sete vezes em poucos anos) e estou mais ou menos acostumada a mudanças de impressão ou a notar novos detalhes. Mas acho que nunca reli nada que mudou tanto como Guerra e Paz. Já adianto que continuo achando que esse é um livro fantástico e mantenho a opinião de que todo mundo que puder deveria ler Guerra e Paz. Mas ler amparada pelo mínimo de amadurecimento que adquiri dos quinze aos vinte e três anos fez toda a diferença.
Eu lembrava exatamente de certas cenas em que tinha chorado lendo e esperei ansiosamente a chegada daquelas partes. Não pude evitar a sensação de irmã mais velha de mim mesma vendo a outra eu de quinze anos fazendo um pouco de drama excessivo. Certas passagens que eram tão emocionantes passaram como pequenas partes do fantástico todo que é o livro.
Em compensação, tem coisas que eu poderia jurar que não estavam no texto quando li pela primeira vez. Como assim não me lembro de ter me emocionado com a passagem do carvalho velho cuja visão praticamente transforma o príncipe Andrei em outra pessoa? Tenho fixação por carvalhos e já pedi várias vezes para meu pai plantar um em casa, mesmo sabendo que não existe carvalho gigante de tronco rugoso instantâneo. Agora imagino que muito provavelmente essa adoração por carvalhos saiu do carvalho de Guerra e Paz, mas não tenho a menor lembrança de ter me impressionado com ele na primeira leitura.
Só enxerguei muitas outras pequenas pérolas do livro agora, boa parte delas formando a minha impressão de que Guerra e Paz é uma descrição atemporal do ser humano, antes de mais nada. Outras pessoas já devem ter dito isso, com certeza, não pretendo ser original. Mas meu momento de perceber isso foi agora, quando não me atrapalha mais a pressa que tinha aos quinze anos. Ainda tenho pressa, mas não a mesma.
A “descoberta” da passagem do carvalho, no entanto, por si só já compensou a releitura dessas 2490 páginas. Vou agora fazer algo que vai parecer bastante pretensioso: tentar convencer você a ler tudo isso usando apenas a passagem do carvalho como propaganda. Claro que você pode procurar essa passagem (eu te ajudo, está logo no início da terceira parte do tomo II do volume I) e ler só ela, mas já aviso que isso vai ser como abrir um pacote da sua comida favorita, comer um pedaço, fechar e largar o pacote no armário. Com a diferença de que se você larga um pacote de comida no armário, ela passa do prazo de validade e se estraga, Guerra e Paz vai estar lá para ser lido sempre que você quiser. Nunca é tarde.
Pois bem. O príncipe Andrei, um personagem que nem vou tentar descrever porque a construção dele leva quase o livro todo, passeava com todo o seu negativismo por uma floresta que começava a mostrar sinais da chegada da primavera. Eis que ele vê, em meio às árvores com folhinhas verdes, um velho carvalho que “se erguia no meio das bétulas sorridentes como um velho monstro irritado e desdenhoso. Só ele não queria se render ao encanto da primavera e não queria ver nem a primavera nem o sol”. E o amargo príncipe Andrei conclui, muito certo de sua sabedoria: “’Sim, ele tem razão, esse carvalho tem mil vezes razão (…). Outros, mais jovens, até podem ceder mais uma vez a essa ilusão, mas nós que sabemos que a vida, a nossa vida, está acabada!’”
Esse homem que se achava muito mais sábio que os “mais jovens” tinha trinta e um anos. No dia seguinte, ele precisou passar pelo mesmo lugar da estrada em que tinha visto a árvore e quase não reconheceu o velho carvalho “totalmente transfigurado”. A árvore agora lhe parecia esperançosa com as novas folhas jovens que brotavam e o leve balanço dos ramos. A primavera que no dia anterior tinha já atingido as árvores vizinhas, mas não o carvalho, agora se mostrava presente também nos galhos velhos e rugosos. O príncipe tem então uma epifania deliciosa de se ler e se convence de que “Não, a vida não está acabada aos trinta e um anos”.
É até triste descrever essa parte maravilhosa do livro com a minha prosa fria e frequentemente irônica. Mas espero ter conseguido dar uma ideia da mágica do texto desse livro. Para mim, o significado da passagem serve para explicar meu espanto com a mudança do livro em uma releitura quase dez anos depois. O príncipe Andrei, no íntimo cultivando uma primavera que ele achava que não conseguia fazer florescer, de repente enxerga suas próprias folhinhas verdes, sua “nova” visão da vida, que na verdade esteve sempre ali. E observa tudo isso refletido no carvalho que mudou de forma de um dia para o outro, expondo a primavera latente que apareceu nele com um dia de atraso. Minha “nova” visão da vida aos vinte e três anos pode me parecer muito diferente da que eu tinha aos quinze, e isso explica porque me reencantei com Guerra e Paz por motivos diferentes. Mudamos como leitores, não somos o mesmo carvalho no inverno e na primavera.
Mas, assim como sabemos que as folhas verdes do carvalho não surgiram de um dia para o outro sem antes serem projetos de folhas dentro da árvore, e o príncipe Andrei não tirou do nada a alegria de viver, sabemos que os leitores que somos hoje não se fizeram do nada também. Foi preciso ser a adolescente agarrada no livro esperando que ele explicasse as pessoas para chegar à adulta (?) que compreende que o livro celebra todas as formas de pessoas. Inclusive as várias formas que podemos tomar ao longo do tempo: podemos ser um carvalho diferente, mas ainda somos um carvalho.
Quem sabe não é depois de ler essas 2490 páginas que você vai ser o carvalho diferente que já quase é.
Isabela Torezan
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