Eu sou uma pessoa muito sensata

Comecei a receber emails de mim mesmo. Eu tenho meu próprio email salvo como “eu” na lista do Gmail, frequentemente me mando emails com fotos que quero passar de um dispositivo para o outro ou um site que quero salvar. Mas estou falando de emails mais longos, com texto e assunto e assinatura. O primeiro dizia “URGENTE: queijo vencido”. Minha primeira reação foi rir: aquela minha foto de perfil ridícula ao lado desse aviso cômico. A mensagem dizia:

Oi, Teodoro!

Só para lembrar que aquele queijo meia cura que você comprou mês passado não está mais na validade. Não se esqueça de jogar fora hoje, quando for pra cozinha.

Abs,

Teodoro

Aí deixei de achar engraçado. Eu mesmo me despedindo de mim com abraços? Pior, “abs”. Eu acho despedida com abraço em email algo totalmente sem sentido. Não abraço gente nem na vida real. Vou abraçar por email? E abreviar ainda. O que é um “abs”, um meio abraço? Talvez um abraço com um braço só, que nem as pessoas fazem quando estão segurando alguma coisa. Dei uma espiada por cima do ombro para ter certeza de que nenhum dos meus colegas estava olhando a minha tela e rapidamente apaguei o email.

Quando cheguei em casa, minha primeira atividade depois de tomar banho e trocar de roupa foi ir preparar algo para comer, como sempre. Eu chego do trabalho faminto. Na verdade eu comeria o dia todo se pudesse, preciso de muito autocontrole para não ser um comedor compulsivo. Abri a geladeira e me deparei com o tal queijo vencido. Eu queria muito simplesmente ignorar meu próprio aviso e deixar e o queijo embolorar na geladeira, eu odeio que me digam o que fazer. E receber ordens disfarçadas de lembretes de mim mesmo feriu meu orgulho mais do que meu chefe me dando ordens óbvias. Mas peguei o queijo, que realmente tinha vencido semana passada. Obedientemente, mas contrariado, desembrulhei o queijo do plástico e joguei no lixo, me sentindo ridículo. Eu não iria comer aquilo, iria? Não, não sou louco. Então porque tanta resistência em obedecer a uma ordem tão sensata? Às vezes me irrito com meu comportamento infantil. Imagino que isso irrite os outros também.

No dia seguinte, a mensagem já não foi tão amigável. Agora que eu já tinha obedecido a um lembrete simpático, ele resolveu (eu resolvi?) ser mais duro. O assunto era “camisas polo”.

Teodoro,

Separe suas camisas polo hoje à noite e leve para a doação na igreja amanhã. Já faz tempo que você deveria ter parado de usar essas camisas, polo absolutamente não cai bem em você. Só piora sua imagem já estragada por esse cabelo de tigela. Fique com as camisas de botão e as camisetas de banda para os momentos informais.

De nada,

Teodoro.

Novamente deletei a mensagem, olhando em volta com medo de que achassem que sou maluco e escrevo emails para mim mesmo. Quer dizer, eu estava escrevendo emails para mim mesmo, mas eu não tinha a menor consciência disso, ou de como isso acontecia. Logo, não tinha culpa. Mas como eu ia explicar isso para alguém que visse? Melhor evitar.

Depois desse segundo email, eu comecei a perceber o problema que eram essas mensagens. Eu sabia que assim que chegasse em casa ia separar as camisas polo e no dia seguinte, sábado, ia levar todas para a igreja. Eu gosto de camisas polo. Eu gostava de todas as minhas camisas polo e achava que ficava muito bem nelas, tinha de todas as cores. Mas é impossível não obedecer a uma ordem vinda de mim mesmo, acredito que isso ocorra com mais pessoas. Não sabem disso porque é raro receber ordens de vocês mesmos.

Como eu esperava, em casa fui direto ao quarto e imediatamente livrei meu pequeno armário das camisas polo. Preciso comprar mais camisas, pensei. Com o expurgo das polo sobrou pouca coisa para usar: menos de uma dezena de camisas de botão, quatro camisetas diferentes do Arctic Monkeys e uma dos Beatles que ganhei do meu pai. Considerando que uso uma camisa por dia no trabalho era pouco, as pessoas comentam se você repete roupas.

Sentei na sala com um sanduíche que preparei e uma tigela de batatas fritas em mãos, pensando em assistir um ou dois episódios de uma série qualquer para dar sono. Mas nem mesmo cheguei a ligar a TV, remoendo o problema dos emails.  Eu sabia que no dia seguinte ia receber mais um email, com alguma nova ordem, e já esperava que seria algo ainda mais intrusivo na minha rotina do que me livrar de roupas que eu usava. Não tenho problemas para dormir, mas se fico muito nervoso demoro a pegar no sono e nessa noite dormi bem pouco.

Seguindo o padrão das mensagens anteriores, o terceiro email chegou também no meio do meu horário de trabalho. O assunto, dessa vez, era “livre-se do gato”.

Teodoro,

Você já devia ter pensado nisso e tomado uma atitude, mas está fingindo que não tem problema nenhum em a vizinha adotar um gato. Essa sua mania de querer evitar confusão vai ser mortal, literalmente, para o seu canário Erasmo. Se não se livrar desse gato o quanto antes, Erasmo vai ser almoço de felino filhote antes que você se dê conta. A vizinha não está nem um pouco preocupada em manter a fera dentro dos muros dela. Eu sugiro uma tigelinha de leite com veneno, é rápido e quase indolor.

Atenciosamente,

Teodoro.

E eu me livrei do gato. Amo animais, não pense que fiz isso com vontade e crueldade. Foi muito sofrido e nem fiquei para ver o bichinho agonizar. Deixei o pires com leite na frente do portão e mais tarde escutei a vizinha gritando. Ela jamais desconfiaria de mim, ela sabe que eu nunca faria mal a um gatinho, quanto mais matar. A culpa caiu no senhor da casa em frente, que odeia gatos. Sinto muito, seu Artur.

Como isso é um conto e não um romance, preciso acelerar a narrativa. A minha tortura já dura dois meses, dois meses recebendo ordens que não consigo desobedecer de jeito nenhum e que sofro obedecendo porque não são coisas que eu faria. Eu pelo jeito não me conheço bem. Por ordens de mim mesmo, coloquei remédio para dormir no café da colega que ia ser promovida no mês, ela dormiu metade do expediente e atrasou as entregas de absolutamente todo o serviço. Em seu lugar, eu fui promovido.

Outros emails fizeram uma verdadeira revolução na minha casa e fui obrigado a jogar quase tudo de comida fora porque tinham conservantes e corantes. Estou há dois dias me alimentando de frutas e legumes porque só consegui ir até a quitanda. Para ir ao mercado preciso de carro e um dos emails me mandou vender o carro, sem explicação. Pensei em pedir pelo telefone, mas outro email disse que eu não deveria fazer isso porque o mercado manda os produtos errados. Os argumentos eram fracos, quando existentes. Mas eu não podia deixar de obedecer.

Por fim, hoje de manhã recebi a ordem de matar meu chefe. Um plano mirabolante que eu jamais imaginei que poderia ser traçado por mim me foi enviado em PDF e a justificativa dessa vez era que a opção óbvia para tomar o lugar dele era eu. Meu salário iria dobrar. Entrei em desespero. Dessa vez eu não precisaria esperar chegar em casa para sentir a absurda necessidade de obedecer. Meu chefe estava bem ali na sala ao lado. Respirei fundo, deletei o email e me esforçando para fazer uma cara de dor convincente, disse ao meu colega de mesa que precisava ir embora urgente, que ele por favor avisasse o chefe. Pedro assentiu com a cabeça sem nem tirar o olhar da tela e eu saí correndo escritório afora.

Relaxei um pouco quando a porta do elevador fechou e só relaxei completamente quando cheguei em casa. Só vejo uma solução para esse caso e é uma solução drástica, mas eu não posso deixar isso seguir em frente. Não posso prever quem seria a próxima vítima e não pretendo saber quem seria. Para criar coragem, tirei do armário uma garrafa de vodka que guardo para quando preciso afogar mágoas ou raiva. Já bebi dois copos e liguei o computador, estou pronto.

Vou marcar meu contato como spam.

Isabela Torezan

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