Correndo montanha abaixo nos Alpes suíços

Resenha de Êxtase da transformação

O título de Êxtase da transformação, de Stefan Zweig, está em uma frase do livro. Quando peguei para ler, o título me pareceu intrigante e planejado, feito para realmente representar a história toda. Mas antes da metade do livro encontrei o título perdido no fim de uma cena. Fiquei um pouco decepcionada, gosto de bons títulos que deram trabalho para serem encontrados pelo autor. Porém depois de ter chegado ao final vejo o nome como perfeitamente possível de ter sido pensado como título. Se me disserem que ele pensou no título primeiro e depois deu um jeito de enfiar ele no meio da história, acredito.

O êxtase mencionado é aquele em que Christine, a personagem principal, fica ao se ver temporariamente transformada na jovem rica e inserida na alta sociedade que ela não é. É a partir desse êxtase que sua vida humilde e conformada, como funcionária dos correios austríacos em uma pequena vila, muda para sempre. É o êxtase da transformação momentânea que coloca Christine na transformação permanente que é sobre o que se trata a história, logo nada mais justo do que usá-lo para nomear a obra.

Christine não sabe imediatamente de sua mudança irreversível. Vestindo-se com roupas finas e caras emprestadas pela tia rica que a convidara ao hotel, ela acredita que se transformou na bela e espirituosa moça de parentesco nobre de quem todos querem ser amigos e a quem os rapazes cortejam, alguns com intenções matrimoniais. Ela rapidamente esquece a sua outra eu, a jovem que atura um trabalho tedioso e mal pago para sobreviver sem nenhum prazer e cuidar da mãe doente. Ela sabe que essa sua nova situação é temporária, mas decide ignorar a ameaça do fim e aproveitar os dias de férias que lhe foram concedidos.

Dizer mais sobre o desenrolar da história poderia gerar críticas de caçadores de spoilers, mas acredito que posso adiantar com segurança que não é sobre sua transformação de plebeia em princesa que se trata o livro. A partir do momento em que descobriu ser possível viver uma vida completamente diferente, sem nenhum tipo de privação, bastando para isso ter dinheiro, Christine está em uma descida sem volta para um estado de inconformismo e desesperança. Ali, no hotel, deslumbrada com tudo de bom que acontece todos os dias e com a beleza de tudo, ela ainda não sabe que está se transformando em ainda outra Christine: a que não aceita mais a injustiça social que se abateu sobre sua família e muitas outras após a Primeira Guerra Mundial.

O texto de Stefan Zweig é fluido sem ser simples. Geralmente não gosto de textos descritivos demais, mas nesse livro cada descrição é um pacotinho de adjetivos muito bem empregados (algo muito difícil de fazer) e algumas cenas são marcantes pelo poder imagético que têm. Acho que minha favorita é quando Christine vai dar uma volta ainda antes do café da manhã e sobe, caminhando, uma encosta das montanhas que cercam o hotel. Lá no alto ela respira o ar puro, colhe flores, deita-se na grama, maravilhada com tudo. Depois, usando toda aquela felicidade como combustível, ela desce a encosta rochosa numa carreira desenfreada, quase voando, correndo o risco de cair quebrar o pescoço. O moço que tinha se interessado por ela no dia anterior no baile a observa de lá de baixo, admirado de tamanha imprudência.

A descida perigosa e desenfreada de Christine encosta abaixo é uma boa representação da descida em que ela está em sua própria vida, mas ainda não percebeu. Ela não terá nenhuma esperança de ascender socialmente, quando acabarem seus dias mágicos sob a varinha de sua tia fada madrinha. Dali em diante será apenas descida, e uma descida perigosa rumo ao ódio, ao inconformismo e ao desespero. Ela ainda não viu esse perigo, como não viu o perigo de se quebrar inteira descendo uma montanha correndo. Ela está muito embriagada pelo ar puro dos Alpes e pelo luxo para enxergar qualquer perigo.

Não temos como saber se Christine sairia de seu conformismo com a pobreza e a injustiça se não tivesse conhecido a outra possibilidade e se deparado com a crueldade dos que se julgam superiores por serem de uma classe mais abastada. O livro gira em torno de uma transformação, um despertar, gerado por um disparador, um êxtase, uma descoberta. Não é um despertar para algo bom, no entanto. Ambos os estados de Christine lhe fazem mal, nenhum dos dois é a vida que ela gostaria de viver. A história não nos leva a preferir um espírito ou outro (o conformado que não nota o desconforto e não o sente ou o inconformado que sofre, mas está em constante movimento pela mudança). Não se trata de uma reflexão sobre essa escolha, a própria Christine não teve escolha, seu êxtase resultou de um acaso.

O final, surpreendente sem ser brusco (há uma delicada ascensão até ele), deixou-me outra pergunta: até que ponto somos capazes de agir por acreditar na possibilidade de mudança?

Isabela Torezan

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