Eu vivia em quase quarentena antes de a quarentena ser imposta ao mundo pela pandemia. Nunca fui de sair muito e no último ano tinha saído de casa quase que exclusivamente para ir ao mercado com a minha mãe. Isolamento social decretado, mesmo que ainda não oficialmente, até mesmo ao mercado deixei de ir. Moro com meus pais e somente eles saem de casa agora, quando é indispensável. Quando as pessoas começaram a ter surtos por não poderem sair e encontrar os amigos e ver gente, eu ainda mal notava a diferença na minha rotina. São meses sem passar pela portaria do condomínio. Tenho ciência do enorme privilégio que tenho por morar onde moro e por ser uma pessoa saudável e acho que seria um absurdo reclamar de qualquer coisa. Não me falta nada e o noticiário traz todos os dias informação suficiente para eu me deprimir pelo resto do mundo, não me sobra tempo para ter pena de mim mesma por não poder sair.
Eu posso ir caminhar nos arredores, moro no que muita gente classifica como zona rural ou o fim do mundo mesmo, e só recentemente me incomodei (muito pouco) com não ver outras pessoas. Por mais que eu tire ideias do nada para escrever, porque invento e minto copiosamente, observar pessoas sempre foi um recurso criativo eficiente para mim. E vejo pouquíssimas pessoas quando vou caminhar, e por pouco segundos cada uma. Deve ser por isso que andei escrevendo sobre pombas e ovelhas.
Mas eu tento tirar o máximo que posso da minha cota de people watching atual. Tem uma casa do condomínio onde mora uma mulher que está sempre regando as plantas do jardim quando eu passo caminhando. Não a cumprimento porque o terreno é grande e o jardim fica longe o suficiente da rua para eu mal distinguir seu rosto. A última vez que passei por lá, ouvi sons de palmas ainda no começo da rua, antes de chegar perto da casa. Clap clap clap, bem alto. Quando o jardim entrou no meu campo de visão, vi a mulher em pé agitando os braços como quem bate palmas, mas com um vigor excessivo. Era fim de tarde, bem o momento em que aquela luz dourada faz os lugares parecerem mais bonitos. Eu costumo pensar na possibilidade mais estranha primeiro, e na mais normal em segundo, é um hábito natural que agradeço todos os dias por ter porque é o que faz as ideias para escrever surgirem tão facilmente. Diminuí o passo: minha vizinha estava vigorosamente aplaudindo o pôr do sol! Será que eu deveria parar e aplaudir com ela? Era um pôr do sol digno de aplausos mesmo, mas não sei se ela apreciaria companhia.
Cheguei perto o suficiente da casa e agora conseguia ver suas mãos e não apenas o movimento dos braços. Ela segurava um par de chinelos. Batia as solas dos dois, uma contra a outra, produzindo o som que achei que fossem palmas. Torrões de terra caíam e, quando ela se deu por satisfeita, parou de bater e entrou em casa segurando os chinelos agora limpos.
Olhei na direção do horizonte e lembrei que sou fotofóbica. Segui andando no ritmo de antes.
Isabela Torezan
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