Eu persigo finais

Não me atrevo a defender que existam métodos de escrita, ou que não existam. Eu realmente não faço ideia. Sempre fazem essa pergunta, “como você escreve?” para escritores em entrevistas e as respostas nunca são sobre a mesma coisa. Uns interpretam como um questionamento sobre o planejamento das histórias e contam sobre seus elaborados métodos de pesquisa e construção de personagem. Outros respondem sobre o ambiente de trabalho e coisas que inspiram o processo criativo. Outros ainda descrevem o caminho que fazem desde ter a ideia, fazer anotações e por fim começar a escrever. Alguns admiráveis donos de uma rotina rígida listam as horas que passam escrevendo e que são contrabalanceadas com sua saudável sequência de exercícios físicos regulados e intervalos perfeitos de sono. Os que têm um método, o explicam. Os que não têm falam da bagunça, e talvez a bagunça seja um método. Enfim, não sei. Se todo mundo escrevesse do mesmo jeito, literatura ia ser um saco.

Não sei se eu chamaria meu jeito de escrever de método. Um método implica ter pensado sobre ele, eu acho, e apesar de eu adorar planejamento, não costumo planejar muito nessa área. Algumas raras vezes, tive uma ideia de final e dei um jeito de fazer a coisa chegar nele, mas não tem muita graça. E em outras, não tinha ideia nenhuma, mas vontade de escrever, e fiquei olhando a tela até escrever alguma coisa sem ter tido uma ideia de começo naturalmente. Não é um “método” de escrita muito romântico, é muito mais bonito dizer que só escrevo quando tenho inspirações legais, mas é perfeitamente possível parir textos por cirurgia em vez de parto normal. Consigo disfarçar que estava sem inspiração e me esforcei para conseguir aquilo. Não digo que são meus melhores textos, mas não acho que perdem muito para os que escrevi perseguindo animada uma ideia fantástica que surgiu de repente quando eu, sei lá, dava banho no cachorro.

Muito mais frequentemente, porém, o começo de uma história me vem na cabeça e eu começo a escrever sem saber como termina. É um mistério para mim mesma e é bastante divertido, pode ser que eu nem mesmo consiga um fim e tenha que jogar tudo fora, mas vale pela emoção em perseguir o final. Com certeza me envolvo mais do que o leitor, que tem mais ou menos a certeza de que o texto vai ter final e continua lendo apenas para saber qual é. Eu continuo escrevendo para saber se ele existe, e aí o como escrevo é mero resultado de porque escrevo.

Felizmente (porque só desse jeito escrever é puro prazer) eu persigo finais na maior parte do que escrevo. Sou muito novinha e bobinha e com um currículo muito curto de coisas escritas para dizer com ar de importante “vejam, é por isso que escrevo!”, mas acho que posso dizer com certeza que o mistério do final é uma grande motivação. Uma vez eu disse que minha escrita é egoísta, porque não penso no leitor quando escrevo, não me importo se vão gostar ou quem vai gostar, e uma amiga disse que isso não é egoísmo (talvez por ser muito educada e achar que me chamar de egoísta era autodepreciação). Não sei como se chama, mas eu escrevo para mim. Escrevo por que eu quero saber o final. Se depois o leitor tiver prazer perseguindo o final lendo, ótimo. Eu me diverti primeiro.

A cada minuto que passa, ficamos mais perto do fim do dia, cada página que lemos nos coloca mais perto do fim do livro, a cada aniversário estamos mais perto do fim da vida e sempre queremos viver intensamente essa permanente perseguição ao final: viver é procurar o fim incansavelmente até ele chegar. Para mim, escrever é perseguir um final porque escrever é viver.

Isabela Torezan

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