Resenha de Todos os nossos ontens
Atenção: contém spoilers leves
O que é o passado? Tudo aquilo que vivemos, tudo o que chamamos de memória, tudo o que podemos contar como sendo a nossa história, isso é o nosso passado. Ele pode ser algo precioso, doloroso, feliz, traumático e até tudo isso ao mesmo tempo. Mas ele não tem existência concreta na nossa vida presente se não é relembrado, contado e recontado, remoído, repisado, feito durar. A literatura é uma das formas de fazer existir o passado. Um passado ficcional de um sobrevivente da guerra pode manter vivo aquele horror, por exemplo.
Todos os nossos ontens, de Natalia Ginzburg, é um relato que faz existir o passado da Segunda Guerra Mundial. Se já não tivesse lido Ginzburg antes (li As pequenas virtudes um bom tempo atrás), teria começado o livro um pouco desanimada, pensando “mais um livro sobre a segunda guerra, são tantos”. Mas confiei, e fui recompensada por isso, que esse não seria apenas mais um livro sobre a segunda guerra. Ler Natalia Ginzburg é como assistir um filme das memórias de alguém sem muita edição. Quando revisitamos memórias, as noções de duração temporal se confundem, se expandem e se contraem, o peso de cada acontecimento não é mais o mesmo de quando ele era o presente. É assim o texto de Todos os nossos ontens. Uma morte pode ser narrada com a mesma simplicidade que uma refeição, um vestido feio pode ser mais lembrado do que o racionamento de comida.
Acompanhamos Anna desde quando ela ainda era a criança da família, tendo como passado mais importante o dia anterior brincando com o vizinho, até quando ela já é mãe de outra criança, com um passado grande e pesado e marcado por coisas difíceis de lidar. E esses passados e seus pesos se misturam, suas importâncias se confundem. O vizinho com quem ela brincava é também o pai da criança que ela quase abortou. Todas essas coisas são, no fim, todos ontens, com o peso que nós damos a eles, mesmo que inconscientemente.
A memória de cada um é literatura dentro da nossa cabeça: pode ser completamente ficcional, ainda sendo uma forma de manter vivo o passado. Inventamos algumas memórias, apagamos outras, acrescentamos detalhes que faltavam em memórias pouco interessantes. Todo mundo escreve e reescreve o próprio passado no presente. E fazemos isso para não deixá-lo morrer. Somos todos apegados aos nossos ontens, mesmo que eles se confundam e se transformem, porque a certeza da existência deles, do nosso passado, é o que nos garante que somos alguém, hoje. Um alguém capaz de enfrentar a “longa vida difícil” que tem pela frente, repleta de coisas que não sabe fazer, como concluem Anna, Emanuelle e Giustino no final da ode de Ginzburg à memória.
Isabela Torezan
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