Manifesto vegetal

Eu estou aqui há seiscentos anos, ela chegou há uns duzentos, apenas. A diferença de idade não é algo tão importante para árvores como é para humanos. Nossa noção de tempo é outra. Vimos, juntas, muita coisa mudar por aqui. Ainda assim, me sinto um pouco constrangida pelo meu tronco grosso e enormes raízes. Os dela não são tão grandes, sinais de sua juventude. E eu a vi chegar, a sementinha voando, poderia ser filha minha. Algo que humanos geralmente também apontam ao criticar casais desiguais em idade. Nós não criticamos isso. Árvores criticam bem menos coisas.

Árvores também lamentam menos. Eu não lamento a inexistência de nosso relacionamento, de que adiantaria? Derrubar folhas de vez em quando não é como derrubar lágrimas, faço isso por necessidade biológica e não psicológica. Não tenho nenhum mecanismo para mostrar que estou triste, então na verdade fica mais fácil apenas continuar existindo, nem feliz, nem triste. Posso observá-la todos os dias, tenho quase garantia total de que ela vai continuar ali no mesmo lugar. Se alguém resolver cortá-la, provavelmente vão querer me cortar também, estamos muito próximas, e então morreremos juntas.

Quando venta, sinto que estamos unidas, porque nossos galhos se movem na mesma direção, no mesmo ritmo, uma mesma dança. Imagino que ela também sinta o mesmo. As folhinhas dela são menores e mais frágeis que as minhas, e o chão fica cheio delas quando temos um desses ventos. Um dia, uma garotinha veio aqui e passou um bom tempo saltando no tapete de folhas que se forma embaixo da minha amada amiga, rindo feliz por levantar as folhas no ar com os pés. Achei gracioso.

Ela toda é muito bonita. Nenhuma de nós duas tem flores grandes e coloridas, mas ela tem algo a mais, com seus galhos finos e abundantes que se estendem para todos os lados, esguios e corajosos. Nunca me vi refletida, não há lago aqui perto, mas sei que ela é mais bonita. Sou encantada por ela.

Ela nunca vai saber disso, porém. Nós, árvores, não comunicamos sentimentos. Apenas a observo, há duzentos anos. E a falta de perspectivas não é algo que me incomoda, como incomoda a alguns de vocês. Penso com tranquilidade em apenas observá-la por mais duzentos anos, se eu viver tanto. A vida de uma árvore é muito calma e pacífica, quando vocês não atrapalham.

A vida de vocês também poderia ser calma, vocês que não querem. Seres humanos adoram complicar tudo. Destroem coisas que são boas para colocar outras nem tão boas no lugar, em geral muito mais feias. Entendo que talvez invejem nossa capacidade de viver principalmente de luz e água, mas sabemos que não faltam nutrientes para vocês também nesse planeta, vocês apenas insistem em serem péssimos distribuidores.

Talvez eu esteja exigindo muito da mente romântica e ansiosa que muitos de vocês têm, mas ofereci aqui minha história de amor de árvore como inspiração para a relação dessa sua raça com o único planeta que vocês têm. Às vezes, vocês podiam refrear um pouco esse ímpeto de querer mudar tudo e apenas observar as coisas que são bonitas e boas, como eu observo minha companheira de folhas pequeninas. Não estou dizendo para enfiarem seus pés no chão e passarem o resto da vida apenas mexendo os braços ao sabor do vento e nunca mais pensarem em construir um shopping. Mas quem sabe pensar com calma antes de trocar um tapete de folhas secas por uma barragem feia de concreto, onde não saltam garotinhas?

Isabela Torezan

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