Resenha de Afirma Pereira
Quando olhei a capa, achei que poderia ser um problema de diagramação, o “A” estava muito perto da palavra “FIRMA”, o artigo tinha juntado com o substantivo. Minha cabeça treinada pelo professor Bola no curso de jornalismo para enxergar defeitos no espaçamento disse que o título do livro era “A Firma Pereira”, provavelmente a história de uma empresa chamada Pereira.
Não era. O título era Afirma Pereira, com o verbo. É um livro de Antonio Tabucchi que entrega na capa o recurso narrativo. Logo no começo, ele (o autor/narrador) conta como o Pereira, seu personagem principal, apareceu para ele certo dia e contou um pouco da sua história. Ele decide então escrever essa história. Assim, o livro todo é creditado ao próprio personagem: afirma Pereira que acordou de manhã, afirma Pereira que disse ao retrato de sua mulher, afirma Pereira que comeu uma omelete, etc. Ao contrário do que pode parecer, não é um texto cansativo, nem um pouco. É uma forma interessantíssima de dar vida a um personagem, na minha opinião, e inclusive pretendo emprestar esse recurso se tiver a oportunidade.
Agora que estou escrevendo esse texto e acabo de citar um ex-professor, percebi algo a mais a respeito desse recurso que não tinha me ocorrido na leitura. Vou mudar agora toda a resenha que já estava planejada na minha cabeça. Eu vivo perigosamente. Vamos lá.
Pereira é um jornalista. Durante toda a sua carreira, foi repórter policial, e agora, já velho e cheio de problemas de saúde, assumiu a chefia da recém-criada página cultural de um jornal conservador católico, o Lisboa. Um pouco de contexto: a história se passa durante a ditadura salazarista em Portugal e o avanço de outros fascismos na Europa. Pereira é o típico “alienado político”, que pouco sabe ou entende do que está acontecendo e se esconde confortavelmente atrás das suas traduções de contos franceses para a tal da página cultural.
Creditar uma fala a uma fonte, no jornalismo, não é um recurso narrativo, mas uma obrigação, em 90% dos casos. Os sofredores alunos de comunicação vivem desesperados atrás de fontes porque precisam escrever que x é y porque fulano disse que x é y; a opinião da maioria é confirmada por um santo exemplar dessa maioria que aceitou dar entrevista para um trêmulo estudante agarrado a um gravador; o outro lado da história tem que aparecer na voz de um muito provavelmente odiado personagem da matéria. Quando peguei meu diploma, jurei aceitar entrevistas de alunos de jornalismo sempre que pudesse, até o resto dos meus dias. Concedo o “afirma Isabela” a quem precisar, venham a mim os desamparados.
Claro, existem exceções. Colunas de opinião, resenhas culturais, crônicas, há cantinhos confortáveis onde a fala da fonte não é central. Ou se quiser sair de vez do jornalismo, junte-se a nós, mentirosos profissionais, escreva mentiras todos os dias ou até mesmo verdades sem fonte nenhuma, ou com fontes falsas, e torça para um editor gostar das suas mentiras ou compre um HD externo bem grande para guardar seus inéditos. Chama literatura de ficção, isso de escrever coisa sem fonte. É bem legal.
Mas não era isso que eu ia fazer, tentar corromper alunos de jornalismo que tem a vocação que eu não tenho. Eu ia falar do que acho que significa Tabucchi ter usado um requisito do texto jornalístico como recurso literário. O Pereira foi, a vida toda, um repórter clássico, que precisa usar o “afirma” e checar os fatos. Mas agora cuida de uma página cultural, não lida com entrevistados e dispensou o “afirma”. Assim como dispensou checar os fatos de uma forma geral: seus únicos interesses são o retrato de sua mulher falecida, sua saúde debilitada, contos franceses e omeletes acompanhadas de limonada com quilos de açúcar. Ele nada sabe do que está acontecendo em seu país e das notícias internacionais.
Mas eis que a vida do Pereira dá umas voltas que não vou explicar, porque seria spoiler, e ele se vê protegendo um jovem rapaz que está envolvido na luta política. E a sua vida pacata sem dar opinião sobre nada acaba sem que ele tenha muito controle sobre a situação, e na verdade temos a impressão de que Pereira não quis controlar isso. O Pereira que, no passado, antes da ditadura, fez a crônica policial do jornal, de repente se vê lidando com fatos brutais em nada parecidos com o mundo alienado de seus contos franceses.
A discussão sobre se o jornalismo pode e deve ser isento é velha. O uso do “afirma” serve, em parte, para livrar o repórter do peso de afirmar algo ele mesmo, coisa muito perigosa nos tempos do salazarismo (e em tempos atuais e fora de Portugal também, mas isso seria assunto para outro texto). A questão do livro é: Pereira vai voltar a ser o jornalista de antes, no sentido de recuperar aquilo da sua antiga vida que o fazia alguém interessado no mundo? Ele não decide fazer a página cultural por um novo amor às artes que tenha desenvolvido, e sim porque pode transformar a página em algo totalmente alheio ao mundo no qual ele não sente mais vontade de viver. Pereira vai voltar a afirmar alguma coisa sobre esse mundo?
Eu acho que Tabucchi quis exaltar a importância de afirmarmos alguma coisa, qualquer coisa, de não se calar diante do que naturalmente nos deixa mudos de espanto e medo. E o jornalismo, com seus muitos “afirma”, é irmão da literatura na família da expressão, do grito, da palavra que voa e espalha. Nós, os mentirosos profissionais, também contamos verdades, mas a gente enfeita com várias invencionices porque não conseguimos evitar.
Jornalistas e escritores, que nunca acabe nossa vontade e liberdade de afirmar coisas o dia todo, todo dia, o ano inteiro.
Isabela Torezan
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