Eu sou um cogumelo

Resenha de The secret garden

A frase famosa da qual mais adoro discordar é “uma imagem vale mais do que mil palavras”. De jeito nenhum. Eu arriscaria dizer até que tem mais grupos de palavras mais poderosos do que imagens, mas na verdade deve ser equilibrado. Há coisas que descritas ficam chatas, há imagens que não dizem nada, há textos mal escritos e fotos mal tiradas, existe poesia que faz chorar e existem quadros na frente dos quais poderíamos ficar horas.

A edição de The secret garden que li (um ebook da Amazon Classics) não tem nenhum desenho bonito, algo meio triste num livro infantil. Não acho que crianças precisem de ajuda para imaginar as coisas que leem, mas histórias infantis geralmente fazem boa parceria com ilustrações de qualidade. No caso desse livro, diversas vezes lamentei não saber desenhar, porque, se soubesse, certamente teria preenchido um caderno inteiro de desenhos com aquarelas de cenas desse delicioso clássico inglês. Minha irmã desenha muito bem e estou tentando convencê-la a ler o livro, na esperança de que saia pelo menos um desenho do jardim cheio de flores com Mary e os lindos animaizinhos amestrados do garoto Dickon.

Há alguns motivos pelos quais eu poderia não ter me interessado o suficiente por esse livro a ponto de decidir escrever sobre ele. Não escrevi sobre algumas das minhas últimas leituras. Não que não fossem bons, mas há livros nos quais penso depois, há livros que apenas li. E, sim, também há aqueles sobre os quais tenho preguiça de escrever.

Em primeiro lugar, é um livro para crianças. Faz tempo que parei de ler literatura infantil. Não estou julgando adultos que gostam de literatura infantil, mas me parece natural que aventuras ingênuas não me interessem muito aos vinte e três anos. Algumas pessoas também duvidariam de que gostei do livro porque é “fofo” e com final feliz: a velha confusão envolvendo meu apreço simultâneo por Quentin Tarantino e Shaun the Sheep, Alice Cooper e Belle and Sebastian. Não tenho problema com coisas bonitas, alegres, fofinhas, coloridas, felizes, positivas ou qualquer outro adjetivo não derrotista, desde que eu ache que é bom, e The secret garden é bom. Com suas muitas descrições de cenas alegres e final feliz.

E aqui chego ao que, na minha opinião, é uma das maiores forças desse livro: descrições. Ou seja, imagem em palavras. Ilustrações seriam muitíssimo bem vindas, mas só porque elas já nasceram na minha cabeça naturalmente quando lia, tal é a força das palavras que descrevem os passarinhos, a grama, o musgo, os brotinhos saindo da terra, os esquilos que saltitam, as flores, a comida preparada com carinho pela mãe de Dickon, as árvores, o bebê de ovelha.

Esse livro vai te convencer de que você precisa de um jardim bem grande, ou ao menos de que seria mais feliz se tivesse um. Mas, antes que o pessoal confuso com minhas demonstrações públicas de adoração a Stephen King ache que fui abduzida (“agora ela vai ler apenas livros da Pollyanna e usar coroas de flores?”), trago o contraponto que não poderia faltar.

Ainda prefiro dias nublados e chuvosos a ensolarados. Frances Hodgson Burnnet não me convenceu com as descrições dos dias ensolarados no jardim, e são as melhores descrições de ambientes ensolarados que já li. Não me interpretem mal, não odeio o sol, a vida nem existiria sem ele, afinal. Plantas precisam dele para fotossíntese, a gente precisa pela vitamina D e etc. Mas sou uma pessoa bem mais feliz na sombra, em mais de um sentido.

Imaginei todo aquele jardim também sem sol, com uma brisa leve correndo. Ou com uma fina garoa caindo, uma cortina prateada de água. O sol de Burnnet é o sol inglês, que nem de longe tem o poder destruidor de Isabelas que esse aqui dos trópicos tem. Mas ainda representa, na história, o momento de renascimento, de evolução, do jardim que antes estava morto e das pessoas que antes estavam acorrentadas em suas reflexões deprimentes. O renascimento do jardim secreto que passou dez anos trancado e secou é espelhado no renascimento da aborrecida Mary, do histérico Colin e de seu pai depressivo. Transformações tão notáveis quanto a chegada do sol após um dia chuvoso.

Acho uma alegoria bonita, mas me reservo o direito de preferir a ideia mais complexa de que seres humanos são, como também são as plantas, bichos e cogumelos, diferentes uns dos outros, e alguns deles podem passar toda uma vida sem atingir nenhuma epifania ensolarada, sem sofrer nenhuma transformação incrível, e ainda serem pessoas muito interessantes em sua (aparente) imutabilidade nublada.

Isabela Torezan

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