Se o problema fosse o filtro

– Esse filtro não tá bom.

Ela estava olhando por cima do meu ombro. Quando foi que eu tinha dado permissão para bisbilhotar o que eu faço no celular?

– Sério, acho que era pra imitar luz de fim de tarde ou algo assim, mas olha a sua pele, você parece o Trump.

Editar fotos para postar no Instagram já é uma atividade estressante e difícil, na qual eu apenas me envolvo porque sou um masoquista regular viciado em redes sociais. Em cem por cento das vezes fico descontente com o resultado e odeio todas as fotos que posto, mas continuarei postando porque é assim que funciona. E Clarissa com certeza não ajudava. Fazia dez minutos que eu estava alternando entre aquele filtro e um outro, tentando decidir entre os dois, e estava prestes a usar o alaranjador de pessoas.

Acabei desistindo de postar a selfie. Na hora, é claro. Eu provavelmente ia voltar a perder mais uns quarenta minutos do tempo que não tenho e resolver aquele problema. Quando ela estivesse tomando banho ou algo assim. Na verdade, é até útil ter uma destruidora de autoestimas dentro de casa: ela sempre faz antes, e de uma vez só, o que a falta de likes faria lentamente.

Decidi postar uma foto do Archibald, meu gato. Parte dos motivos de eu ter adotado um gato foi poder postar fotos de gato, é uma forma fácil de manter seu perfil ativo. As pessoas amam fotos de gato. De cachorro também, mas é mais fácil tirar foto de gato. Eles dormem boa parte do dia e alguns tem expressões engraçadas quando acordados.

Coloquei Archibald (o nome também foi escolhido com o propósito de ficar bem nas legendas) no sofá e coloquei meu kindle na frente dele, apoiado em uma almofada. Meu plano era uma foto do tipo “meu gato lê tanto como eu”. Archibald está acostumado e é muito colaborativo nessas sessões de fotos. Ele nem se mexe.

Tirei umas cinquenta e depois de uma difícil seleção, escolhi a foto que achei que tinha o melhor ângulo e que permitia identificar o título de Guerra e paz. Editei um pouco o contraste e a saturação e passei para os filtros. Pensei em usar aquele que parece câmera instantânea e… havia algo errado.

Nada dos filtros comuns que trocavam ligeiramente a cor do ambiente fotografado ou, em casos extremos, transformavam pessoas em Trumps. Apliquei o primeiro filtro da lista e Archibald ficou ensopado, com uma cara miserável, e uma atmosfera sombria substituiu a luz de fim de tarde que entrava no apartamento. Olhando melhor, notei gotas de chuva preenchendo a foto toda. Selecionei o filtro seguinte e Archibald virou um saco de ossos. Parecia que eu o tinha deixado sem ração por um mês. Que raio de atualização do Instagram era essa? Eu até tinha gostado daqueles filtros diferentes que as pessoas estavam usando nos stories, o de florzinha na cabeça era legal, mas os filtros das fotos do feed eram os mesmos há um tempo.

Com o terceiro filtro, Archibald ganhou notáveis costuras pelo corpo todo e um olho torto e vermelho. Eu estava horrorizado, logo quis continuar a explorar. O próximo filtro provavelmente fazia referência a morte por afogamento, porque meu gato parecia um balão inchado de água. Com o quinto filtro, Archibald ficou no meio de uma poça de sangue, com uma faquinha enfiada nas costas e tinha até umas gotinhas vermelhas em primeiro plano, como se tivesse espirrado na câmera.

– EDUARDO QUE PORRA É ESSA?

Ela estava olhando por cima do meu ombro de novo. Tinha acabado de sair do banho e seu cabelo pingava água com creme de pentear no chão, enquanto ela olhava para a foto de nosso gato morto na minha tela. No sofá, Archibald descansava de sua cansativa vida de gato, provavelmente sonhando com os personagens de Guerra e paz.

– Eu não sei, tava usando o app pouco tempo atrás e tava normal. Agora fica essas coisas estranhas quando tento colocar um filtro. Talvez seja um especial de Halloween.

Clarissa pegou o próprio celular, escolheu uma foto de comida da sua galeria e abriu como se fosse postar. Seus filtros eram os mesmos de sempre do Instagram. Aparentemente o especial de Halloween era especial mesmo, só para mim.

Abri e fechei o app várias vezes e até desinstalei e instalei de novo, e nada de ter os filtros normais de volta. Na quarta vez que reiniciei o app, o bug piorou e excluiu a opção de postar a foto sem filtro nenhum (o que já seria ruim o suficiente). Bastava eu abrir a foto para postar e automaticamente um dos filtros estranhos era aplicado. Isso excluía a possibilidade de editar a foto em outro app e postar diretamente.

Já era quase de noite e eu não tinha postado nada. Num sábado. Meu Instagram já estava cheio de fotos de mesas de jantar, canecas de cerveja, outros gatos, algumas fotos de pés com meias e baldes de pipoca, vários pôr do sol mal registrados e inúmeras selfies. Tinha já também um vídeo do meu amigo Renan tocando violão e cantando. Ele sempre posta de sábado.

Comecei a ficar desesperado. As pessoas iam achar que eu tinha morrido. Que estava doente, impossibilitado de tirar selfies. Ou que Archibald tinha morrido. Ou que estava brigando com Clarissa. Ou que meu celular estava quebrado e daí ninguém ia falar comigo. Ou pior, que eu tinha resolvido ficar sem redes sociais.

– Posta nos stories, ué. – Clarissa enrolava os fios de cabelo com creme com uma mão e descia o feed do Instagram com a outra.

Claro. Os stories. Eu estava tão desesperado com a possibilidade de ter que ficar sem postar que me esqueci completamente de que tinha outra opção para tranquilizar as pessoas sobre a minha existência. Eu posto mais no feed do que nos stories, ao contrário da maioria. É mais torturante porque não some sozinho depois, se eu quiser admitir a derrota preciso deliberadamente apagar a foto. Stories é para inseguros covardes. Me acalmei e me lembrei de que existia também o Facebook, o Twitter, muitas outras opções caso o Instagram continuasse insistindo em matar meu gato.

Com certeza o bug seria consertado em alguma atualização e eu poderia voltar a alimentar meu perfil normalmente. Um sábado apenas com stories não ia me matar. Peguei outra das cinquenta fotos de Archibald e postei com um filtro qualquer nos stories. Me senti bem melhor. Várias pessoas responderam com reações de emojis de olhos de coração. Archibald era garantia de sucesso.

Seria bom terminar a história aqui e contar que no dia seguinte meu Instagram tinha voltado ao normal e esse estranho defeito nos filtros tivesse sido o único problema com minha ferramenta de autotortura favorita. Archibald com certeza também teria achado bom. Mas no domingo, depois que comemos os restos da pizza do sábado, Clarissa e eu decidimos ver um filme e notamos que Archibald não estava no seu lugar de sempre, atrapalhando a visão da TV.

Na verdade, ele não estava em lugar algum do apartamento. As janelas tem tela, logo ele não poderia ter se suicidado. Desistimos do filme e levantamos o sofá, abrimos armários, gavetas e tiramos móveis do lugar. Archibald já tinha sumido uma vez e acabamos encontrando ele dormindo na gaveta de lençóis. Mas dessa vez, nada.

– Edu? Já faz vinte e quatro horas que você postou a foto ontem?

Peguei meu celular e abri o Instagram. A foto do dia anterior não estava mais visível. Clarissa tinha tido um insight correto e eu pensei então no meu kindle, que eu tinha deixado no banquinho do banheiro. Corri até lá e nada. Procuramos pelo apartamento inteiro de novo, agora atrás do meu kindle, que se provou tão desaparecido quanto Archibald. Sumidos vinte e quatro horas e muitas reações depois.

Agora Clarissa quer adotar um novo gato e me obrigar a excluir minha perigosa conta no Instagram. Estamos brigando há dois dias por causa disso, e estou numa crise de abstinência terrível, há dois dias apenas postando coisas em outras redes sociais. Eu quero tentar criar um perfil de Instagram novo, abandonar esse meio amaldiçoado e poder continuar vivo socialmente postando fotos de gato. Mas ela enfiou na cabeça que o problema sou eu, logo qualquer conta nova que eu criar vai sumir com as coisas que eu postar nos stories. Eu sugeri que seria bom se eu sumisse com um gato por semana, tem tantos perdidos por aí e esse era um jeito bem pouco cruel de reduzir a população de gatos sem dono. Ela me chamou de monstro e não falou comigo pelo resto do dia. Eu gosto de me torturar e bloqueio pessoas nas redes toda semana, eu nunca disse que era um cara legal.

Estou esperando ela se acalmar enquanto providencio um novo kindle. Tem alguma coisa ou alguém que você queria fazer desaparecer? Me manda a foto no direct.

Isabela Torezan

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