Não é só tédio

Resenha de This side of paradise

“Why shouldn’t you be bored,”, yawned Tom. “Isn’t that the conventional frame of mind for the young man of your age and condition?”

“Yes”, said Amory speculatively, “but I’m more than bored; I am restless.”

Amory Blane.  Se me dissessem que iriam me apresentar um cara chamado Amory Blane, eu torceria o nariz. Amory Blane é nome de gente enjoada, na minha opinião. Ele é apresentado logo no início de This side of paradise, primeiro livro de F.Scott Fitzgerald, o autor de Great Gatsby. É o protagonista e é tudo o que é preciso para ser um jovem chato: é considerado bonito e, pior, se acha bonito e digno de ser alvo dos suspiros de qualquer mocinha da sua idade, tem dinheiro suficiente para gastar ou ao menos para fingir que pode gastar indefinidamente e preza mais a aparência de culto do que realmente ler livros.

Eu não diria que passei a gostar de Amory depois de terminar a história, mas eu toparia tomar um café com ele.  Eu provavelmente sou tão chata como Amory, afinal, apesar de muito diferente. Ele se apaixonou “definitivamente” umas cinco vezes, cada vez supostamente de outra forma. Teve o coração partido em pedaços uma única vez, porém.  Quando chega o momento de escolher a universidade em que iria estudar, usa critérios nada indicativos de maturidade como o “tipo” de pessoas que estudavam em cada uma e acaba escolhendo Princeton. Na universidade, começa a escrever e ler de verdade, e não só como acessório de personalidade. Vai para a guerra (a II GM) e volta vivo e pouco afetado.  Falha em se envolver em causas como as que atraíram vários de seus amigos e, fora da faculdade, falha em encontrar um emprego que goste. Administra mal o dinheiro, ganha pouco e acaba enfrentando algo que não tinha na infância e adolescência, o problema com as finanças.

Esse poderia ser o resumo da vida de muitos jovens, inclusive de jovens de hoje, muitos anos depois dos anos 20. Excluindo, é claro, a parte da II GM. Mas que poderia ser substituída na estrutura pela pandemia de coronavírus, talvez. O que me faz pensar que eu tomaria um café com Amory Blane não é nenhuma parte da sua história pouquíssimo digna de nota. Tenho interesse, em vez disso, em perguntar a Amory por que raios ele se considera “um romântico”. Segundo o próprio Amory, um romântico, ao contrário dos sentimentais, tem grandes esperanças de que as coisas não vão durar. Mas Amory claramente tem um problema em ter paixões, sejam elas românticas ou sentimentais! Ele não emprega todas as suas energias em nada nenhuma vez, embora se engane algumas vezes pensando que estava fazendo isso. A poesia, os estudos, a guerra, várias mulheres, a profissão, a religião, a falta dela, o socialismo, nada nunca ocupou Amory por inteiro, como eu imagino que aconteça com as personalidades românticas. Até mesmo a sua experiência de coração partido me pareceu mais uma crise pela sua própria falta de capacidade de se afetar profundamente do que realmente uma afetação pelo fora da Rosalind.

Eu contaria a Amory que ele é o perfeito exemplo comprovador da minha Teoria do Tédio. É uma teoria que desenvolvi alguns anos atrás e que eu considero que explica muitos problemas da geração da qual faço parte. Uma grande parte da juventude mundial tem problemas muito graves: se você lê notícias diárias provavelmente vive deprimido com o tanto de jovens fugindo de guerras, passando fome, sem família, sofrendo violência, sem acesso a estudo, doentes, a lista segue. A outra parte, a que não tem problemas muito graves, tem problemas menores ou não tem problemas. E com isso não estou diminuindo os problemas de ninguém, não digo “menor” no sentido de menos importante, porque problemas são importantes para quem os sente, mas existem condições de vida que impedem de pensar que a situação poderia ser muito pior. Se você sabe que sua situação poderia ser muito pior, pertence ao segundo grupo de jovens mencionados.

Muitos dos jovens desse grupo, livres do peso que tragédias causam na vida de outros jovens, sofrem com o peso do tédio. Falham, como Amory, em encontrar alguma coisa que ao menos faça parecer que a vida tem algum sentido. Exatamente porque falham, não sei, minha teoria não chegou aí ainda, mas encontrar sentido na vida é realmente uma tarefa árdua, não se pode esperar que alguém consiga isso facilmente aos vinte anos de idade. É um tédio tão profundo que causa inquietação e desconforto, e alguns tentam lutar contra isso, tentam encontrar paixão em algo e nem sempre dá certo. Quando dá certo, é ótimo, o jovem deixa de ser um Amory Blane, assistindo a vida passar. Mas são bastante comuns os que apenas se entregam ao tédio e esperam que a vida adulta traga algo melhor, ou que consomem pacotinhos efêmeros de interesse que o capitalismo e redes sociais muito espertamente oferecem. Minha Teoria do Tédio foi fundamental para que eu parasse de julgar mal muita gente. Levar a sério a condição de entediado me fez compreender reações à vida diferentes da minha. Tédio é algo de que eu certamente nunca sofri, embora me inclua na categoria dos que sabem que poderia ser muito pior, melhor dizendo, em uma subcategoria que sabe que está ótima. O desconforto juvenil não se manifesta em todo mundo do mesmo jeito.

Ler This side of Paradise corrigiu um pequeno erro na minha teoria: ela não se refere aos jovens de hoje somente.  Amory viveu décadas atrás e era um entediado. Provavelmente muitos antes dele foram entediados. Ser jovem é viver espremido entre a expectativa infantil e a nostalgia dos mais velhos, sufocado nas auto demandas por viver um presente satisfatório. Pareceu exagero? Você não deve ser jovem. Talvez uma conversa com Amory Blane te convença do contrário, ele é meio chato, mas é um garoto interessante.

Isabela Torezan

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