A porta abriu, só tinha um cara dentro do elevador. Segurando a alça da mochila pendurada no ombro direito, ela entrou decidida e um pouco aliviada, como sempre ficava quando o elevador chegava meio vazio. No inferno, os pecadores são enviados do térreo ao vigésimo sétimo andar em um elevador com quinze pessoas até que estejam implorando por outro castigo. Ela se acomodou no canto diametralmente oposto ao do homem, que olhava o mostrador digital do elevador como se lesse um anúncio interessante na parede, as mãos nos bolsos do jeans. A porta fechou e começaram a subir, o dois virou três e depois quatro e quando passavam do seis (só faltam oito agora! Mesmo vazios, elevadores não eram seu ambiente favorito) o homem tirou as mãos dos bolsos, colocou-as na cintura e, olhando para ela, declarou, alegre:
– Sabe? Hoje não estou com vontade de matar ninguém!
Sete. Oito. Nove. Ela precisava responder alguma coisa, o homem continuava sorrindo.
– Ah! Que bom!
Dez. Onze. Pelo amor de deus sobe logo. Doze.
– Pois é, ninguém mesmo. Nem mesmo uma formiguinha.
Treze. Catorze. Ufa.
– Até logo! – ela disse, se arrependendo imediatamente porque vai que o destino acredita e faz ser logo mesmo, queria ter dito até nunca, pisou com força o chão branco refletindo a luz branca ofuscante e virou para o lado errado do corredor. Continuou andando na direção errada até ouvir a porta do elevador fechando e então parou, leu 1408 em uma porta e deu meia volta. O escritório ficava no 1402. Passou pelo elevador de novo com medo de que abrisse e o cara estivesse lá dentro ainda, ele podia ter mudado de ideia.
– Boa tarde, Sandra. – Entrou cumprimentando a chefe e já indo em direção à sua própria mesa.
A chefe almoçava no escritório. Talvez ela dormisse ali também. Nunca tinha visto a Sandra saindo antes dela.
– Boa tarde, Gabi. Nem senta. Leva esse pacote lá embaixo pra mim, por favor. Fala pras meninas da portaria que Eduardo Araújo vai vir pegar, tá o nome dele aí anotado. É só entregar.
A chefe esticava um envelope pardo e gordo. Contendo um suspiro, ela pegou o pacote, largou a mochila na cadeira e saiu, fechando a porta com extremo cuidado para não ceder à vontade de bater com tudo. Sandra podia ir ela mesma levar esse pacote, não podia? Ia fazer bem levantar um pouco daquela cadeira, sair do escritório, ela não era contratada para levar pacotes. Considerou por alguns segundos a possibilidade de descer de escada, mas a lembrança de uma barata morta na última vez que passou pelas escadas do prédio a convenceu a apertar o botão do elevador. Elevador talvez cheio ou com um louco dentro ainda era melhor que barata, mesmo uma barata morta. No inferno, quando o castigo do elevador já não é eficiente, os pecadores são perseguidos por baratas gigantes.
O elevador vinha do subsolo de novo. Pensando bem, talvez agora ela até preferisse umas cinco ou seis pessoas como companhia em vez do louco sorridente. Parou. Segurando o pacote pardo, ela já avançava o corpo na direção da porta quando foi obrigada a rapidamente recuar, enojada, antes que a onda preta e gosmenta que saía de dentro do elevador encobrisse suas sapatilhas bege. Deu vários passos para trás fugindo da massa escura que se espalhava pelo corredor até encostar na parede oposta. Ficou na ponta dos pés, o envelope caiu e seu instinto foi abaixar e pegar. Deu um grito de nojo que aparentemente não foi ouvido por ninguém do andar e largou o pacote de novo, que bateu com um sonoro splash no chão coberto por… o que era aquilo? Ela colou os calcanhares na parede com mais força, tentando evitar sujar os sapatos, ao mesmo tempo que se esforçava para identificar que sujeira era aquela.
Formigas. Milhares de pequenas formigas daquele tipo de abdômen redondo, maiores do que as que atacam potes de açúcar e tubos de pasta de dente, mas a maior parte já esmagada e transformada na pasta escura que escorria de dentro do elevador aberto. Ela seguiu com o olhar a trilha de insetos assassinados e pela porta agora totalmente aberta viu seu companheiro de minutos atrás instalado no mesmo canto de antes.
– Sabe? Às vezes a gente muda de ideia, né? – ele sorria, segurando um frasco de inseticida em spray e gentilmente sapateando o chão do elevador, a massa de formigas grudando e desgrudando das solas dos seus tênis.
Isabela Torezan
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