A Terra é redonda

Resenha de Beatriz

Acho que os únicos livros autografados que tenho em casa são dois do Cristovão Tezza, A tradutora e Beatriz. Ambos comprados uma vez que o Tezza veio para Londrina e deu uma palestra no Museu Histórico. Eu lembro que ele escreveu a dedicatória e explicou “está escrito ‘com um grande abraço de Cristovão Tezza’, eu explico porque ninguém entende a letra”. Eu pedi para ele autografar o A tradutora para mim e então guardei na minha estante, o Beatriz ganhou uma dedicatória para a “família Torezan” então foi parar na estante coletiva de casa. O resultado dessa separação foi que li A tradutora e parti para outras leituras esquecida de que tinha um Tezza novinho lá em cima no escritório, o constante acúmulo (maravilhoso!) de coisas para ler me prega essas peças.

Mas sabe aquela coisa de achar dinheiro em bolso de calça guardada? Foi mais ou menos a mesma sensação. Fui procurar um livro do Rubem Fonseca que eu sabia que tinha aqui e ainda não tinha lido, e topei com o Beatriz não lido. A data da dedicatória é maio de 2018, ainda bem que não era dinheiro porque livro não desgasta com a inflação. O achado encaixou nos meus planos de equilibrar melhor minhas leituras entre nacionais e estrangeiros e levei ele para o meu quarto. Rubem Fonseca ficou para depois, é brasileiro mas eu estava com saudades do Tezza.

Beatriz é um livro de contos, uma raridade na obra do Tezza, e a Beatriz do título é a personagem comum a todos eles (e também é a Beatriz que ele desenvolveu e transformou na tradutora do outro livro, se entendi direito). Ele mesmo escreve no prólogo que é um não-contista e por isso esse livro destoa do resto da sua obra. As histórias não deixam de ser contos, mas a marca do romancista ali é clara. Consigo imaginar ele se segurando para não encompridar tudo e fazer virar duzentas páginas. Imagino mas não compreendo, eu quero sempre cortar tudo, por um fim, matar o texto antes que eu pare de gostar dele, explodir aquele microcosmo para poder criar outro logo. Não sei se consigo ser romancista um dia, preciso me livrar desse instinto assassino primeiro.

Do alto da minha medíocre presunção de que sei o que é um bom conto porque tento escrevê-los todos os dias, afirmo que Tezza daria um bom contista, além de romancista. O texto confortável dos romances, que eu leio me encaixando como me encaixo na poltrona da sala que é minha por convenção, está ali nos contos. A habilidade em construir personagens que faz os romances tão fluidos foi aproveitada nesses textos curtos, e em contos há menos espaço para fazer isso.

Mas a leitura de romances, em geral, gera nos leitores impressões mais ou menos uniformes em relação às várias partes da obra, o que pode não acontecer com um livro de contos. Se não gostamos do final de um romance acabamos desgostando do livro todo. Raramente alguém faz elogios à qualidade de um capítulo em específico e desqualifica o resto, por exemplo. No caso de reunião de contos, é perfeitamente possível odiar uns e amar outros. A última vez que isso aconteceu comigo foi com o Sombras da Noite do Stephen King, que tem uns contos simplesmente horríveis, que eu juro que ele incluiu para mostrar que podemos errar na vida, junto com verdadeiras obras primas na narrativa breve.

Tomo então a liberdade de fazer minha avaliação editorial da composição de Beatriz: o primeiro conto (Beatriz e o escritor) seria dispensável, mas é bom, e o último (O homem tatuado) deveria ter sido dispensado, porque achei ruim. Todos os contos do meio são muito bons e Um dia ruim é perfeito, uma narrativa prazerosamente redonda, o tipo de círculo textual que eu adoro. Espero que Tezza nunca leia isso e fique chateado, mas O homem tatuado é decepcionante e eu não sei o que está fazendo ali, até onde eu consegui enxergar é apenas uma história que, com culpa de falar mal do mestre, classifico como cliché, a Beatriz carente de afeto entrando num sebo de livros desorganizado e sendo seduzida pelo jovem de traços orientais e cheio de tatuagens que gerencia o lugar. Retiro o que eu disse caso o conto seja muito mais que isso e eu tenha ficado cega pelo meu desprezo por histórias centradas em casais e meu hábito de desconsiderar do mundo literário aqueles ebooks da Amazon com títulos como A virgem e o CEO. Eu mesma advogo contra essa desclassificação, livro é livro, que sirva a quem servir. Mas não consigo controlar a risada quando vejo aquelas capas, é um verdadeiro antidepressivo. Acho que é possível defender a existência dos romances com CEOs da Amazon e não levar aquilo a sério pessoalmente. Eu sou completamente a favor da legalização da maconha e não fumo, afinal.

Mas meu deus, o conto ruim do Tezza está muito longe dos ebooks duvidosos da Amazon! Ao menos não tem um homem musculoso segurando um bebê loiro como ilustração. Essa comparação foi resultado de falta de foco. E de qualquer forma, prefiro acabar a resenha falando do conto perfeito, porque gosto muito do Tezza e quero lembrar desse livro pela aventura surreal de Um dia ruim e não pelas passagens sem gosto de O homem tatuado. Eu disse que o conto era o tipo de círculo textual de que gosto, e acho que isso merece mais explicações. Sabe a história que parte de um ponto aparentemente aleatório, um momento qualquer, desimportante,  um instante na vida de alguém, e então esse alguém se move na história, coisas estranhas acontecem e a pessoa acaba trombando com o ponto de partida novamente, com o acontecimento inicial? Acontece assim no dia ruim da Beatriz, e porque é bem escrito nem Beatriz nem leitor percebem que estão caminhando no círculo de volta ao começo.

Acho que gosto dessa estrutura e gostei desse conto porque é um bom lembrete de como pode ser simples resolver as coisas, às vezes: volte ao começo, ao princípio. A solução para o texto que não consigo acabar pode ser a ideia inicial, e não uma outra nova que estou perseguindo incansavelmente. O fim de um dia ruim pode ser a solução de um pequeno problema do começo. A resposta para um dilema pode ser aquela motivação inicial de que já nos esquecemos. Eu não sou terraplanista, acredito que é possível viajar muito, aprender muito, dar uma volta completa e retornar no mesmo exato ponto, sendo a mesma pessoa, mas completamente diferente.

Isabela Torezan

Leave a comment