Toda vez que alguém me vinha com essas coisas de meditar, fazer exercícios, tomar chazinhos e não sei o que mais para curar minha insônia eu tinha vontade de sufocar a pessoa nos travesseiros que eu encharcava de suor à noite. Eu já tinha tentado tudo isso e também remédios, hipnose, recitação de mantras, difusor de aromas, ASMR, trocado o colchão, trocado o travesseiro, pintado as paredes do quarto, trocado a lâmpada do abajur quatro vezes e também me tornado vegano. Trocar o colchão e virar vegano foi ótimo, mas eu continuava sem dormir. O resto acho que foi desperdício de dinheiro e tempo. Eu tinha insônia crônica, e quem não tem insônia crônica jamais vai entender a profundidade do significado desse termo.
Quando o diabo me propôs a cura do meu problema em troca da minha alma, hesitei apenas porque fui ensinado a ter medo do diabo. Pura pressão social. Sem ela eu teria aceitado imediatamente. Na catequese estudamos a história desse cara e aprendemos que ele é muito poderoso, mas sinceramente? Acho que o Jeff Bezos é mais perigoso. Quantas vezes a Amazon não te fez gastar um quarto do seu salário de uma vez só? E o diabo aparece e me propõe um escambo, essa forma antiga e inocente de negócio, e ainda pede em troca minha alma, que, diga-se de passagem, era um produto de qualidade altamente duvidosa.
Pensei até em avisá-lo disso, afinal eu sou uma pessoa honesta. Eu poderia enfim DORMIR e ele ia ficar com minha alma de plástico barato encalhada em casa. Mas eu devo ter um Bezos dentro de mim também, que briga com o lado honesto. Acabou que fechamos o negócio por whats, e ele disse que viria buscar minha alma no dia seguinte e resolver minha insônia. Passei o endereço. É, eu sei, não é seguro passar o endereço da sua casa para alguém que você acabou de conhecer, e por mensagem ainda. Mas não era qualquer pessoa, afinal, era o diabo.
Ele chegou uns vinte minutos atrasado. Eu já estava com um café passado e disse para ele ficar à vontade, que desculpasse os pelos de gato no sofá. Henrique VIII, meu gato, saiu correndo e se escondeu atrás da TV assim que o diabo entrou.
– Obrigado pelo café, está ótimo. No inferno só temos café solúvel. Terrível. Você tem certeza, então? – ele segurava a xícara com o dedo mindinho levantado, achei elegante.
– Toda a certeza. Eu preciso dormir.
– Mas e a sua alma? Tem certeza de que não vai precisar dela? Eu já fiz esse negócio com um monte de gente e já vi muitos casos de arrependimento, por isso que estou insistindo com você.
– Olha, se alguma vez eu já usei isso, foi há tanto tempo que nem me lembro. No atual estágio da minha vida tenho zero utilidades para uma alma. Pode levar.
– Bom, ok, então. Me deixa tomar mais um cafezinho desse e já concluímos tudo.
Servi mais café para ele e busquei no armário um pacote de pó de café gourmet que ganhei da minha mãe. Por alguns dias ele poderia tomar um café decente.
– Você quer uma caixa para levar? Tem a caixa do ventilador que comprei esses dias, se quiser por dentro.
– Não, eu trouxe uma ecobag. Imagino que não seja muito grande?
– Nada, cabe com certeza.
Ele tirou do bolso uma coisa dobradinha que desdobrada virou uma sacola de algodão com alças fortes de lona. Demos uma amassada na minha alma e fizemos ela caber na sacola.
– Muitíssimo obrigado pelo café – disse ele, abraçando o pacote que dei – Me barraram na entrada do supermercado esses dias que tentei comprar umas coisas que não acho lá embaixo, e eu estava usando máscara, acredita? O cara nem mediu minha temperatura nem nada. Me enxotou na hora.
– Poxa. – Eu disse. Não sabia muito como expressar empatia com o diabo. E estava sentindo um sono celestial.
– Eu vou indo. Bom sono pra você.
Eu só consegui fechar a porta e me arrastar para a cama. Senti Henrique VIII subir na minha barriga e depois disso não me lembro de mais nada porque apaguei.
Acordei no dia seguinte com a sensação de que havia algo errado. Havia algo errado: eu tinha dormido. Isso era errado não no sentido de que não deveria acontecer, mas no de que nunca acontecia. Era fora do padrão. Nunca me senti tão bem com algo errado antes. Saltei da cama com tanto ímpeto que Henrique VIII foi parar do outro lado do quarto, coitado. Peguei meu celular e levei um susto: tinha mensagem do diabo. Enviada de madrugada. Será que ele tinha desistido do acordo? Não é difícil perceber que minha alma era ruim, ele com certeza teria se dado conta do mau negócio assim que chegou em casa.
“Oi, desculpa o adiantado da hora, mas queria te perguntar do seu gato. Achei ele fofinho e bichos de estimação são sempre as primeiras vítimas dos desalmados com quem faço negócio. Não é muito profissional de minha parte me meter nisso, mas por favor doe o seu gato para alguém de confiança antes que faça algo de ruim pra ele”.
Ora essa. Olhei para Henrique VIII enrolado em sua almofada ao pé da cama, ele me parecia tão indispensável quanto antes. Não estava sentindo a mínima vontade de judiar do bichinho. Mas devia ter alguma razão para o diabo se preocupar com isso. Respondi:
“Oi, bom diaaa. Não se preocupe, o Henrique VIII está bem. Vc acha que corro risco de fazer algo com ele?” e inseri um emoji de cara preocupada.
Ele respondeu uns minutos depois.
“Olha, em cem por cento das vezes que transformei alguém em desalmado a pessoa ficou tão ruim quanto eu ou em alguns casos, até pior. Eu tinha certeza que vc ia acordar e bater no seu gato. Normalmente eu nem ligo mas sei lá dessa vez fiquei com dó.”
“Entendi. Olha, to me sentindo normal. Se vc quiser pode vir de vez em quando dar uma olhada nele. E tomar um café.”
Sempre bom tranquilizar o diabo. Não é a melhor pessoa para se ter como inimigo. Eu disse que minha alma era de péssima qualidade, nunca foi ela que fez de mim alguém bonzinho com os bichos. Eu tinha certeza de que não ia fazer diferença nenhuma me livrar dela, e não fez mesmo. Agora durmo oito horas por noite e Henrique VIII dorme em cima da minha barriga, embalado pelo sobe e desce da minha respiração. Sou um desalmado feliz. E quinta que vem o diabo vem aqui, já comprei mais café do bom.
Isabela Torezan
Leave a comment