Resenha de O mestre e Margarida
Tem um intervalo de tempo que varia de alguns segundos a alguns minutos, logo depois que acordo de um sonho, em que as coisas absurdas que acabei de sonhar ainda não são tão obviamente absurdas. Nesse pequeno intervalo de tempo, ainda parece possível que a advogada da Mauricio de Sousa Produções tenha me ligado e me acusado de infringir direitos autorais, ou que minha mãe tenha me mandado ir ao shopping comprar um micro-ondas e eu tivesse que gritar uma senha e entrar correndo no shopping para não ser pega por algo que não lembro o que era, mas poderia ser uma horda de zumbis. Esse momento pós-sonho tem uma sensação peculiar difícil de descrever.
É essa sensação que provocam diversas partes de O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (li a tradução do russo de Irineu Franco Perpetuo). Não é o livro inteiro que parece esse momento em que acabei de acordar, mas eu diria que esse truque de imergir o leitor em coisas absurdas sem que ele se dê muito conta disso predomina na história. É como se ele dissesse: sim, se o diabo estivesse em Moscou e resolvesse dar uma festa num apartamento ia ser exatamente desse jeito, você que é estranho por não ter pensado nisso. O diabo não só deu uma festa em Moscou como enlouqueceu uma porção de gente, transformou outras em bruxas (e elas adoraram) e também arranjou um final feliz para um casal.
Recentemente compramos, de uma só vez, uns sete ou oito livros de autores russos. Eu empilhei tudo na mesa da sala e chamei de “invasão russa”. Eu não tinha lido a sinopse de nenhum quando escolhi, selecionei um título de cada russo que eu ainda não conhecia (Bulgákov incluso) e uns dois do Dostoiévski que ainda não tinha lido. Escolhi começar pelo O Mestre e Margarida quando li a sinopse e vi que era a história do diabo visitando Moscou e que tinha inspirado a música Sympathy for the devil. Eu nem sou tão fã de Rolling Stones assim, mas como resistir a um clássico russo fantástico que inspirou uma música de rock? É tão irresistível quanto pão integral com tofu mexido picante e geleia de mirtilo. Que é uma combinação improvável, mas adorável.
Até alguns livros atrás, eu ainda via “literatura russa” como algo com uma certa unidade, com um conjunto de características em comum que tornava possível ver uma lista imensa de autores sob um mesmo prisma, portadores de sinais estilísticos similares, ainda que fossem completamente diferentes um do outro. Claro, sempre usei a nacionalidade para falar de conjuntos de obras, “literatura brasileira”, “literatura francesa”, etc. Mas, por algum motivo, apenas com os russos eu via o fato de pertencerem todos ao mesmo país como um indicativo de estilo. Talvez porque a Rússia sempre me impressionou muito como nação, quando estudava História no colégio. Eu nunca dizia “gosto de literatura brasileira”, porque obviamente não conheço toda a literatura brasileira, na verdade nem mesmo uma fração considerável dela, e mesmo do que conheço não gosto de tudo. Idem para outras nacionalidades. Mas eu dizia “adoro literatura russa”.
Essa concepção vem se esfarelando há algum tempo, e finalmente me livrei dela com a leitura de Bulgákov. Nunca li nada parecido na vida, muito menos de literatura russa. Não sei de onde tirei que podia achar que gostava de Tolstói, Turguêniev, Dostoiévski e Gógol pelo mesmo motivo. Gosto de todos, mas não porque são todos russos. Porque são todos bons, e únicos. Espero que todos esses mortos me perdoem pelo relativo apagamento da individualidade deles que fiz durante muitos anos. Sei que quase nada sei de literatura, e que, por mais que eu aprenda, sempre vai faltar muito. Logo, melhor um aprendizado meio tardio do que nenhum, e será que ainda estou falando do livro ou da vida, já acordei ou posso esperar uma bruxa entrar voando pela janela?
Isabela Torezan
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