Chover, verbo intransitivo

Eu amo a chuva. Eu me lembro de um livro infanto-juvenil que lia com frequência na biblioteca da escola no ensino fundamental em que a chuva era um dos personagens. Não consigo me lembrar do nome do livro nem da história inteira, mas lembro que uma das crianças da história dizia que o dia estava feio porque estava chovendo, então a chuva aparece, triste, questionando se então ela não era bonita, e o menino percebe como a chuva era linda, prateada e delicada, e promete nunca mais dizer que dias chuvosos eram feios. Mil desculpas ao autor ou autora dessa história por eu não me lembrar do seu nome ou do título do livro, porque adoro essa imagem até hoje. Às vezes olho a chuva caindo e a vejo como essa presença elegante e prateada, uma deusa de gotinhas.

Meu livro de poemas favorito quando criança era Cheiro de chuva da Rosana Rios. O cheiro de chuva tem um nome que é uma palavra linda: petrichor. Chuva, junto com assar pão, é o mais próximo de magia que uma pessoa que esperou a carta de Hogwarts em vão pode ter. Chuva é água caindo do céu, sendo formada sem que você veja, e desaparecendo diante dos seus olhos. Como isso não é mágico? Tanto quanto ver farinha, água e um micróbio virarem o rei dos alimentos.

Depois da chuva, é quando as árvores ficam mais próximas da gente, porque elas sorriem. A chuva calma é uma das músicas mais bonitas que existem, e o barulho da tempestade é o melhor lembrete de como a natureza é grande e poderosa, muito maior do que os pequenos problemas que às vezes fingem que são poderosos e vão nos derrotar.

A chuva na verdade é várias, são chuvas. Aqui, sinto que o português falha por ter um rol tão pequeno de palavras para chuva: garoa, tempestade, temporal, manga d’água. Talvez algumas outras de que me esqueci ou não conheço, mas não deve ser muito mais do que isso. “Garoa”, por exemplo, serve para nomear tipos de chuva muito diferentes uns dos outros. Aquela chuva de gotas finíssimas, tão finas que é impossível ver, e que sentimos na pele quase que como um abraço de nuvem, é garoa em português. Mas aquela chuva de pingos esparsos, pequenos, mas que formam uma marquinha redonda no chão seco de cimento, uma chuvinha organizada, também é garoa. Tem a chuva de depois de um dia de calor infernal que chega sem forças para combater a secura do ar, e tenta com gotas grossas e pesadas compensar a pouca carga d’água. Com essa dá para brincar de pega-pega. Tem a chuva que é canção de ninar, que começa de noite, calma e regular, e que quando amanhece compõe com o céu cinza minha estética de dia favorita. Tem a chuva gelada com pedrinhas de granizo, geniosa e decidida. Tem a chuva paciente, que chove por dias, ou por semanas, sempre igual, incansável na tarefa de molhar a terra até o sol resolver aparecer. Tem a chuva relâmpago, tímida, que some assim que você percebe que está chovendo. Tem a tempestade propriamente dita, sempre acompanhada do parceiro vento, que tira tudo do lugar, ilumina com raios, lava, leva, querendo renovar tudo e fazer tudo renascer. Tem a chuva de verão, uma das mais aguardadas, e que chega orgulhosa por ser tão querida, e cai devagar e tranquila e forma enxurradas para colocar barquinho. Tem a chuva inesperada, que vem numa hora absurda e surreal em que ninguém esperava chuva. Eu poderia talvez listar um novo tipo de chuva a cada vez que chovesse, porque uma chuva é sempre diferente da outra.

A chuva tem fama de triste porque as pessoas associam gotas caindo com lágrimas e lágrimas com tristeza, eu imagino. Seriam as nuvens chorando. Eu tenho síndrome da expressão emocional involuntária e grande parte das lágrimas que derramo por ano são resultado de uma crise de riso incontrolável, não de tristeza. Para mim, chuva nunca foi associada com nada feio ou triste. A água caindo é linda, e eu sempre adorei a palavra lágrima, de qualquer forma. Me sinto confortável e segura em dias chuvosos.

Não sei aonde eu queria chegar com essa homenagem à chuva. Acho que a lugar algum, a chuva também não tem objetivo nem destino definido. Ela apenas cai. É o que eu acho que devemos fazer às vezes, apenas cair. Apenas escrever, ir, dizer, pensar, viver. Chover é verbo intransitivo.

Isabela Torezan

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