Alucinada como uma porquinha-da-índia

Resenha de 1Q84

Confesso que a minha vontade era apenas fazer um poster ou algo do gênero escrito “leiam 1Q84”, porque todas as vezes em que pensei em sentar e escrever a resenha desse livro, me vinham mil temas diferentes para servir de tópico, e eu não sabia qual deles escolher para falar. Se eu falasse sobre todos, a resenha ia ter quase o tamanho do próprio livro (que é enorme, para quem nunca viu ele na livraria, são três volumes). Então eu tinha que escolher um. Escolher não é muito a minha praia, por isso cheguei aqui mais de uma semana depois de terminar a jornada Murakami.

Esse foi meu segundo Murakami, e eu não gostei muito da história do primeiro (Sul da fronteira, oeste do sol). Resolvi dar uma segunda chance porque li em algum lugar que Sul da fronteira era justamente um dos livros mais atípicos dele, por não ter o elemento fantástico. Se o resto da obra é fantástica e com esse nível de texto, só pode ser bom, pensei. Na terceira página de 1Q84 eu já estava mais viciada no livro do que a porquinha-da-índia da minha irmã no capim especial dela. Essa pode parecer uma comparação aleatória, mas não é. A porquinha fica com uma cara alucinada quando aparece o tal capim, e eu suspeito que tinha a mesma cara alucinada lendo.

Acho justo que eu fale então do fantástico em 1Q84. Podem julgar isso como uma escolha preguiçosa. Afinal, o livro é famoso principalmente por isso. Mas considerando que foi provavelmente o elemento viciante para mim, porque o outro grande elemento é uma história de amor meio estranha que não me interessou muito, de mim vão ouvir apenas elogios ao absurdo murakamiano.

Contextualização rápida: 1Q84 é o nome que Aomame, uma das personagens principais, dá ao mundo alternativo em que ela acredita estar vivendo depois de sair de 1984 por uma escada em uma via rápida que também era uma espécie de passagem mágica. Nesse novo mundo, tem duas luas e não uma só e forças ocultas sob o nome de Little People (li a tradução do japonês para o inglês de Jay Rubin e Philip Gabriel) governam a sorte de todo mundo.

Eu costumo ler literatura fantástica e estou, de certa forma, acostumada ao gênero. Mas desde que esperei a carta de Hogwarts aos onze anos, nunca tinha chegado tão perto de acreditar em algo que li como aconteceu com 1Q84. Murakami descreve um mundo alternativo, absurdo, mas que soa perfeitamente existível. Tão visualizável e possível de ser sentido como esse mundo aqui. Escrever o texto fantástico, na maior parte das vezes, significa entregar ao leitor algo estranho ao que ele vê todo dia, alheio, difícil de crer, e que por isso mesmo encanta.

Murakami subverte isso entregando um fantástico disfarçado de comum (ou o comum disfarçado de fantástico?). Não que o texto deixe de surpreender e seja uma narrativa sobre coisas corriqueiras, mas cada coisa absurda está tão bem encaixada nele que é impossível ler e não abrir espaço na nossa percepção para aceitar aquilo.

Quer dizer, talvez seja. É um processo muito pessoal. Não sei se todos os leitores de 1Q84 se veem de repente propensos a acreditar na possibilidade de ligações improváveis entre eventos desconexos, mas eu sinceramente espero que sim. Porque é uma sensação maravilhosa, ser levado a isso por um livro. Recomendo. Mas evitem o espelho, para não se assustarem com a própria cara de alucinados.

Isabela Torezan

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