To be or not to be: essa não é a questão

Feliz é um estado, não uma condição permanente. Ninguém é feliz, todo mundo está ou não está feliz. Não sei se é possível dizer o mesmo da tristeza, talvez seja possível nunca ter estado feliz, e nesse caso pode-se dizer: é triste. Não sei. A minha experiência de vida, felizmente, me permite apenas cronicar sobre uma existência pontuada por estados alegres. Saber que está feliz e que é impossível se declarar feliz (assim: “eu sou feliz!”) é algo que demanda tempo e aprendizado. Entender que essa impossibilidade não é sinônimo de tristeza, mas de algo normal de ser humano, exige ainda mais tempo e aprendizado.

Almas matemáticas devem resistir à tentação de contabilizar os momentos felizes e, mostrando que ultrapassam em número os momentos tristes, declararem-se pessoas felizes. (Se é que alguém é capaz de definir o que é feliz ou triste, aliás. Mas parto do pressuposto de que cada um sabe isso à sua maneira). Eu não acredito em quem faz tal declaração. Se felicidade é uma coisa a ser buscada, cultivada, regada e adubada, celebrada, etc., e você a transforma em uma certeza, em uma característica da sua vida, qual a graça? Nenhuma, tédio, uma vida de observador passivo do mundo ofuscante que você criou. Tudo brilha o tempo todo, uma luz neon que nunca se apaga.

Acabei por entender que é por isso que a tal positividade tóxica, termo da moda, me incomoda tanto. Claro, incomoda muita gente, senão não teria um nome tão ruim. Mas incomoda por que? Inveja de quem consegue viver num estado permanente de positividade e nunca se deixar abater por tudo o que a vida obviamente tem de ruim? Não, incômodo com o desserviço que isso causa. O tal do tempo que precisamos para entender que é possível estar feliz, mesmo não sendo, aumenta para muita gente afetada pelo bombardeamento de conteúdo desses seres de luz que resolveram que tinham a tarefa heroica de apagar a escuridão do mundo.

Não os julgo. Não conheço suas motivações. Talvez sejam apenas pessoas muito equivocadas que não fazem isso por mal. Talvez seja gente que sofre muito e reage dessa maneira estranha, apontando o sofrimento alheio como errado para encobrir que sofrem eles mesmos. Não tento entender, apenas silencio (oh, o maravilhoso recurso das redes sociais). Talvez eles precisem de ajuda, mas eu não saberia como oferecer.

O que tudo isso tem a ver com o título? Não muito, exceto o fato de que minha cabeça não foi capaz de desenvolver raciocínios longos o suficiente para dois textos, e acabei tendo que colocar os dois num texto só. Tirei essas conclusões geniais (alerta de autoironia) pensando em português, minha querida língua mamãe. Temos dois verbos bem diferentes que me permitem pensar assim, ser e estar. Se eu fosse traduzir essas tagarelices do meu cérebro para o inglês, coisa que eu ando fazendo com frequência depois que resolvi me enfiar nessa arte impossível, me veria limitada a um verbo só: o famoso to be. I am happy pode ser tanto uma resposta para how are you (now)? quanto uma declaração assertiva sobre uma vida inteira.

Claro, isso não é um problema incontornável. Diga I am happy today e tudo resolvido. Uma palavrinha a mais, nada grave. Não posso nem mesmo começar uma reflexão sobre qual dos sentidos de to be Shakespeare tinha em mente, tenho certeza de que vários estudos de tradução já fizeram isso muito melhor do que eu jamais poderia. Não é essa a questão. A minha questão é que, em inglês, língua que também amo muito, há ainda mais incerteza sobre a duração da felicidade. (I am happy: for how long?). E eu estou feliz com isso.

Isabela Torezan

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