O Mateus derreteu

Primeiro, achei que fosse só eu quem estava vendo. Sei lá, depois da história do advogado que não era gato eu acredito em qualquer coisa de bug de reunião online. Como ninguém mais tinha expressado reação ainda, eu fiquei olhando o nariz do cara derretendo ao vivo sem saber se apertava o botão de sair da reunião imediatamente ou se pensava em algum jeito de ajudar a pessoa. Mas aí a minha chefe deu um grito, assustando o gato que até então ninguém tinha visto que estava no colo dela, e todo o resto da equipe parou de fingir que não estava vendo nada. Ou, na verdade, eles não estavam fingindo, mas estavam tão paralisados quanto eu.

Fazia umas duas ou três reuniões que aquele moço não aparecia. Eu nem lembrava o nome dele, ele entrou para a equipe já dentro da pandemia e a gente nunca se viu pessoalmente. Não presto atenção suficiente no grupo de whats para decorar nomes. E tínhamos tarefas muito diferentes que nunca se intersectavam, nunca precisamos nos comunicar diretamente. Mas dessa vez não tinha muita gente na sala ainda, todo mundo atrasado, e a imagem da câmera dele ficou visível no canto inferior direito da minha tela, junto com a chefe e uns tantos outros colegas. Todo mundo dando oi, encarando a tela, bebendo café, água, esquecendo a câmera e coçando o nariz e a orelha, mastigando a manga da blusa, esperando o resto chegar. Menos ele. Ele encarava a câmera com um olhar triste, mas calmo e sério. No começo, só a pontinha do nariz começou a mudar de forma, acho que por isso pensei que só eu via.

Mas logo o nariz inteiro dele era uma grande tira de carne escorrendo face abaixo, me lembrei dos relógios derretendo do Dali, e a chefe gritou e outra moça gritou e eu gritei e o gato sumiu. O cara, nada. Nenhuma reação. Continuava olhando a câmera. As pessoas começaram a falar com ele, gritar Mateus, Mateus (aí descobri o nome), e isso tornou a confusão ainda maior porque aparentemente o gato também chamava Mateus e ficou intrigado com tantas vozes gritando seu nome de dentro de uma placa luminosa. Eu não sabia que gato sabia o próprio nome. Achei que isso fosse exclusivo dos cachorros.

A chefe empurrou o Mateus gato para o chão de novo, e o Mateus derretente levantou a mão e limpou a cara como quem limpa meleca de nariz, só que o nariz dele era a própria meleca. Meu deus, isso é horrível de escrever. Parece aqueles contos ruins do Stephen King sobre máquinas assassinas. Com a diferença de que eu não inventei nada disso, a minha realidade é que é trash mesmo. Algumas pessoas tiveram a ideia de escrever no chat, alguém derretendo provavelmente não ouve direito, ou ele tinha desligado o áudio sem querer, e o olhos dele se moveram para ler o chat, e nisso começou a escorrer uma pálpebra. Que nojo. Ele digitou “tudo bem sim, meio quente aqui hoje”.

Quase todo mundo saiu da reunião, sobrou a chefe com o Mateus felino, acho que tentando ligar para o outro no celular (para que, não sei), eu, dois outros caras e o dito cujo, agora sem o nariz e uma pálpebra. O olho desprotegido dele encarava a câmera de um jeito sinistro que jamais será reproduzido por nenhum filme de zumbi. Nenhum que eu tenha coragem de assistir, pelo menos. Por que eu ainda estava vendo aquilo?

Minha ex-namorada dizia que a gente às vezes se apega a coisas horrendas porque não sabe a que mais se apegar, e eu acho que fiquei assistindo meu colega de trabalho derreter ao vivo numa reunião do Zoom porque não sabia o que mais assistir naquela noite. A TV só ia falar de gente morrendo mesmo, todos os últimos doze filmes que eu tinha visto pareceram sem graça perto do apocalipse real, os vizinhos que eu costumava espiar estavam internados com covid.

Assisti tudo, quando só sobrávamos eu e ele na sala e o resto já tinha desertado. Depois da cabeça, o pescoço e a parte visível do tronco demoraram um pouco mais para derreter e eu não desgrudei o olho da tela. Consumi cada momento daquele espetáculo de horror cotidiano.

Quando só sobrava a cadeira, um pouco suja de Mateus derretido, finalmente cliquei no botão de sair e fui ver alguma coisa para jantar. Já eram quase dez da noite. A droga da reunião tinha comido minha noite. Nunca isso ia acontecer no escritório, ninguém ia ter coragem de marcar coisa presencial tão tarde. Cara, eu odeio reunião online.

Isabela Torezan

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