Inspiração

Escrever é um ofício que depende bastante de um recurso de disponibilidade instável, mal distribuída e difícil de ser suprida quando em falta: inspiração. Não se compra inspiração, não se faz curso de inspiração, não tem alimentos que melhoram a inspiração, não tem chazinho para inspiração, não existe playlist geradora de inspiração. Sair para andar é frequentemente citado como um recurso para conseguir inspiração para escrever, e certamente é mais eficiente (e mais saudável) do que ficar sentado encarando a tela em branco, mas está longe de resolver o problema em uma porcentagem significativa dos casos de bloqueio.

É possível escrever sem inspiração, e até mesmo é possível escrever bons textos sem inspiração. Mas é mais ou menos como almoçar sem fome, apenas porque é importante fazer refeições em horários regulados. Ou seja, meio chato. Já escrevi isso antes e acho que estou me repetindo. O texto deveria ser sobre conseguir inspiração.

O que é inspiração, afinal? Não é vontade de escrever, é possível ter muita vontade de escrever e nenhuma inspiração. Também não é ter ideias, dá para ter uma ideia fantástica e escrever um texto ridículo porque faltou inspiração. Talvez seja a combinação de vontade de escrever com uma ideia boa, de um jeito que as duas se encaixem, calibrado (no meu caso) por boas noites de sono e temperatura abaixo de vinte e cinco graus. Se eu não fosse ateia, acrescentaria a essa lista um componente místico e diria que precisa de boa ideia, vontade, condições ideais e uma dose da energia do plano espiritual que move todos os loucos que dedicam horas e horas do seu tempo a juntar palavras.

Muito frequentemente, ou talvez não tão frequentemente assim (há escritores sortudos, que moram em lugares frios, que dormem muito bem…) uma pequena catástrofe acontece e nos vemos sem ideia, sem vontade, desconfortáveis e sem energia espiritual. A solução mais eficiente para esses momentos, e minha favorita, é: não escrever. Não, não é a mesma coisa que procrastinar ou deixar de trabalhar por estar doente. Escritores deixam de escrever por preguiça e por estarmos doentes, a gente é humano, embora às vezes não pareça. Mas deixar de escrever por falta de inspiração ainda é trabalho, porque sabemos que o estado de desisnpiração é sempre um mero estado de latência. Quem escreve confia que vai escrever. Logo ou daqui um ano. E algum texto que nem mesmo o autor sabe qual é está sendo gestado.

Mas claro, pode ser que você não pode se dar ao luxo de não escrever e boiar nas águas plácidas do seu conveniente estado de latência. Então pode lançar mão de um writing hack de que gosto muito: escrever sobre escrever. Sente-se e dobre o ofício sobre ele mesmo, isso dá um bug naquela energia espiritual. É uma geração artificial de inspiração.

É o que acabei de fazer.

Isabela Torezan

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