Resenha de Espelho partido
“Escrevo porque gosto de escrever. Se não parecesse exagero, diria que escrevo para agradar a mim mesma. Se, ainda por cima, o que escrevo agrada aos outros, melhor. Talvez seja mais profundo. Talvez escreva para me afirmar. Para sentir que sou…”
Poderia ser algo que eu escrevi com a maior sinceridade, palavra por palavra. Mas coloquei as aspas para indicar que não é, afinal, citar a si mesma com aspas é sinal de suprema arrogância. O trecho é do epílogo de Espelho partido, joia da autora catalã Mercè Rodoreda, que acabo de terminar de ler na tradução de Luis Reyes Gil. Não sei descrever bem a sensação de ler minhas próprias palavras escritas por outra pessoa (eu inclusive já escrevi algo absurdamente parecido) sendo essa outra pessoa uma escritora catalã que obviamente não me plagiou. Se alguém fosse ser acusada de plágio, seria eu, claro, mera mortal semi-publicada com um quinto do talento. Até eu acreditaria na acusação, não fosse o álibi de que não conhecia esse livro ainda e, melhor, não gostei do primeiro livro que li de Mercè Rodoreda. Eu não iria copiar alguém de quem não gosto, certo?
Sendo ainda mais sincera, eu tinha certeza de que não ia gostar desse também. Achei A praça do diamante uma história um tanto sem graça que não me deixou imergir, e achei que Espelho partido ia ser um romance dramático tedioso. Um Morro dos ventos uivantes catalão. Graças ao meu excelente hábito de sempre suspeitar de sinopses (a Netflix é uma ótima lição de vida para isso), ignorei a sinopse que alimentava meu preconceito e mergulhei.
Não precisei de muito para saber que estava redondamente enganada. Presa desde o primeiro capítulo. Sobre o que é a história? Não sei, sobre dor? Sobre a falta de significado de tudo? Sobre não existirem fins e começos, apenas um meio eterno no qual estamos todos presos? Poderia ser qualquer um desses, e todos juntos, e todos juntos e mais outros temas. Só não me convenço de que é um romance sobre histórias de amor com um pano de fundo histórico. Se alguém reduzir esse livro a isso merece ler tabela nutricional o resto da vida. Nada contra tabelas nutricionais, adoro, inclusive. Mas enfim, essa pessoa merece ser privada de um texto profundo.
Para escrever algo um pouco mais pé no chão, porque não é todo mundo que vai se convencer a ler o livro por causa das minhas supostas interpretações filosóficas abstratas, o livro me lembrou bastante Todos os nossos ontens, da Natalia Ginzburg. Que, se não me engano, eu disse que era sobre tempo e memória. Tempo e memória são personagens de Espelho partido, com certeza, mas eu não sei se diria que a história é sobre isso. Acho que eles estão ali mais para provar que são coisas tão relativas que não vale a pena a gente viver orientado por isso.
Aliás, meu tempo e memória não tem nada em comum com o tempo e memória de Mercè Rodoreda, que viveu em outra época, falando outra língua, em outro país, e casou aos 20 anos com o tio paterno. Ainda assim, pensamos exatamente a mesma coisa sobre a atividade de escrever. Ou eu achei, quando li o trecho pela primeira vez, que pensávamos a mesma coisa. Na verdade, a lição que se tira do título (que só podemos entender no final do livro) é que temos a ilusão de semelhança ou mesmo repetição exata das coisas, tudo é espelho, até que ele se parte. Aí ficamos com imagens diferentes, porque o espelho em pedaços reflete tudo à sua própria maneira, não mais obrigado a ser eco perfeito do real. Amamos a literatura porque nos sentimos compreendidos pelo escritor que criou personagens com as nossas dores, os nossos desejos, porque achamos que os livros são espelhos da nossa vida e ficamos menos solitários. E essa é uma das ilusões mais saudáveis a serem mantidas. O que não nos impede de acolher a consciência de que espelhos se partem, de que o reflexo nem sempre significa correspondência, de que não sabemos o suficiente sobre nós mesmos para nos identificarmos com o que quer que venha de fora.
O espelho partido é real, o intacto não é. Talvez Rodoreda queria que seus leitores acreditassem que sua obra era real, franca e autêntica, e por isso deu esse nome. Como toda escritora, ela queria que os leitores se vissem no livro. Falamos que escrevemos para agradar a nós mesmas, mas essa não é toda a verdade. Escritores nunca dizem toda a verdade, se é que dizem alguma. Como não sabemos o quanto de verdade tinha nesse epílogo, nem o quanto de verdade tinha nas minhas próprias palavras, está desmoronada a minha identificação completa com as palavras da escritora catalã que ganhou prêmios. O espelho se partiu.
Isabela Torezan
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