O meu sim vai chegar, resta saber onde

Por um bom tempo eu adorei isso, cheguei a botar no meu currículo “capacidade de multitasking”, como se fosse uma coisa que treinei bastante até conseguir fazer. Uma mentira inocente.  Na verdade, desde a infância eu não sou capaz de fazer as coisas de outro jeito. Não sei focar em uma tarefa única, é muito chato, eu sempre entendi quem inventou o negócio de ler gibi no banheiro. E que vão pro inferno os médicos que dizem que isso é ruim. Por que apenas ver novela, quando se pode ver a novela descascando alho? Uma tarefa completa a outra. Assim como lavar o banheiro ouvindo o podcast do jornal, e fazer abdominais decorando os números em francês de 1 a 100.

Enfim. Enquanto alguns demonizam o multitasking ou sofrem porque queriam isso ou dias com 72 horas, eu sempre fui muito feliz aproveitando essa minha habilidade. E sim, faço as coisas com qualidade. Nada daquilo de que fazer várias coisas ao mesmo tempo é não fazer nenhuma direito. Quando me formei e comecei a procurar emprego, descobri que isso era ainda mais útil. As pessoas em geral não são muito qualificadas para dar conta de mais de uma tarefa de uma vez, e me dei conta de que isso me colocava em vantagem. Até eu começar a ser atrapalhado pela minha própria produtividade.

Não é exatamente o que você está pensando. Não comecei a ter insônia resultado de burnout ou dores no corpo psicossomáticas por trabalhar demais. O que aconteceu comigo não tem registro na literatura de LinkedIn até o momento. A primeira vez em que percebi que alguma coisa estranha estava acontecendo foi quando terminei de atualizar meu Lattes (tinha pedalado vários quilômetros na minha bicicleta ergonômica enquanto isso) e fui colocar na pia a caneca de café vazia. A pia deveria estar vazia e limpa, porque eu tinha atacado essa tarefa doméstica enquanto o já mencionado café passava e também ao mesmo tempo que pesquisava um bom modelo de aspirador de pó para dar de presente para a minha mãe.

Mas a pia não estava vazia e limpa. Quer dizer, limpa até estava, mas minha outra caneca de café estava lá dentro, suja de café. Eu tenho uma caneca branca e uma preta, e alterno entre as duas conforme o meu humor. Para quem está sempre fazendo duas coisas, pelo menos, ter ficado dois minutos e alguns segundos encarando uma caneca de café que não deveria estar na pia trouxe uma sensação bem diferente. Olhei meio apalermado para a caneca preta na minha mão e para a branca dentro da pia. Pensei em algumas possibilidades: a) eu estava desenvolvendo algum problema neurológico que me causava pequenas amnésias, bebi café na caneca branca antes de beber na preta e esqueci; b) alguém tinha invadido minha cozinha enquanto eu pedalava na sala, pegado a caneca no armário, bebido café e deixado a caneca na pia (talvez alguém viciado em café); c) a caneca não era real e aquilo era uma ilusão de ótica; d) existia uma outra dimensão em que eu tinha bebido café na caneca branca e as duas dimensões partilhavam a mesma cozinha, de forma que a caneca suja foi parar na mesma pia da dimensão em que eu estava agora.

Pensei nessas quatro possibilidades durante os dois minutos e pouco que passei olhando a pia, então lavei as duas canecas enquanto alongava os tornozelos. Estava muito incomodado com o episódio das canecas para me concentrar em algo relacionado a trabalho, e decidi dar por encerrado o expediente. Peguei a toalha de crochet que estava fazendo e comecei a trabalhar nela enquanto ouvia um episódio de podcast enorme e muito chato sobre bitcoins. Eu guardo a esperança secreta de um dia saber explicar o que é bitcoin. Ainda sobrava espaço no cérebro para analisar as minhas quatro opções, e foi o que eu fiz.

Historicamente, na minha vida, a opção mais improvável é geralmente a que se prova verdadeira. De forma que logo excluí a opção do problema neurológico e amnésia, era uma explicação fácil demais. A opção da invasão da cozinha era boa, porque moro no quarto andar e dificilmente alguém conseguiria entrar pela janela da cozinha. Bastante improvável. Ainda assim, não me parecia inusitada o suficiente para ser verdade. Já a opção da ilusão de ótica excluí mais facilmente, porque eu inclusive já tive ilusões de ótica uma vez que tomei um analgésico muito forte. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Sobrou a opção da dimensão paralela, que me parecia impossível o suficiente e, portanto, merecia ser investigada mais a fundo.

As evidências começaram a se acumular, gerando material para a minha investigação. O episódio da caneca foi o primeiro e o mais inócuo. Foi por isso que eu disse que comecei a ser atrapalhado pela minha própria produtividade, quem me dera as coisas tivessem ficado nisso de a versão da outra dimensão insistir em tomar café ao mesmo tempo que eu. Porque o idiota continuou fazendo isso também, acho que para me irritar. Eu limpava a pia e tinha certeza de que, quando voltasse lá com uma caneca vazia, a outra ia estar lá, também suja de café. Mas tá, isso é irritante, mas não necessariamente prejudicial.

Aí, no sábado, resolvi organizar meu armário de sapatos. Tenho muitos sapatos e preciso de um armário separado só para eles. Gastei duas horas nessa tarefa (enquanto também ajudava um amigo com o dever de francês pelo Google Meet) e, quando acabei, quase chorei de orgulho. Cada sapato tinha seu lugar perfeito e não tinha nada amontoado e também nenhum espaço vazio feio. Otimização do espaço 100%. Então, vi que tinha notificação de novo e-mail no meu celular e adivinha? Uma compra de OITO novos pares de sapato em uma loja online tinha sido feita com o meu nome e cartão enquanto eu arrumava o armário.

Não era golpe, fraude. Tentei cancelar a compra, sem sucesso. Nisso culpo a loja, e não a outra dimensão. Era tão complicado cancelar a compra que antes que eu conseguisse fazer isso, a entrega estava na minha porta, menos de dois dias depois. Sentei no chão diante dos meus novos calçados e dessa vez chorei mesmo. De raiva. Eu teria que guardar tudo aquilo em outro lugar, meu trabalho de encaixar todos os sapatos de maneira perfeita no armário tinha sido todo perdido.

E estamos nessa briga, eu e o cara da outra dimensão, desde o mês passado. Na verdade, não sei se somos duas pessoas totalmente separadas, visto que partilhamos a mesma cozinha e, pelo jeito, o mesmo cartão de crédito. Mas ele claramente não prioriza o aproveitamento do que EU faço. Saio para correr e quebro meu recorde de fôlego? Encontro um pote de sorvete de dois litros vazio na bancada da cozinha (e sinto a barriga cheia). Consigo ir dormir cedo e recuperar meu estoque de sono? Descubro no dia seguinte na minha Netflix que na verdade maratonei uma série inteira até duas e meia da manhã, e percebo que estou com olheiras. Fiz quarenta minutos de yoga, estava me sentindo ótimo e feliz até abrir o Spotify e descobrir que na outra dimensão eu estava ouvindo uma playlist chamada “Sad songs to cry at 2am”.

Compreendem as evidências? O eu da outra dimensão tem comportamento autodestrutivo, ao que parece. É péssimo que minha capacidade de multitasking tenha se estendido a esse ponto emocional. Agora vivo na insegurança de que enquanto estou aqui, orgulhoso de todo esse progresso de anos que a terapia me permitiu, ele esteja ao mesmo tempo encarando o espelho e chorando pelo passado ouvindo Radiohead.

Estou aceitando ajuda para lidar com essa situação, porque pelo jeito vou ter que aprender a viver com isso. Me assustei ontem quando me peguei pensando em uma maneira de assassinar o engraçadinho que larga caneca de café suja na pia. Ele sou eu! Esse é um pensamento horrível e perigoso. É que o jeito que ele age me faz esquecer que somos o mesmo, não me identifico (mais) com uma personalidade daquelas. Meus anos cinzentos estão no passado. Ou melhor, estavam. Com essa história de ser ativo em dimensões simultâneas sobrou espaço para isso voltar.

Enquanto escrevia esse texto, também estava editando meu CV. Acabo de perceber que na outra dimensão eu estava fazendo o mesmo, finalmente resolvemos concordar na atividade. Só falta achar uma vaga de emprego querendo alguém que fez um curso de pintura em vitral exatamente ao mesmo tempo que aprendia técnicas básicas de programação de computadores.

Isabela Torezan

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