Há muito tempo não escrevo. Não com a intenção de compor um texto “lível” (legível é outra coisa), rabiscos no meu caderno cumprem a função de dar uma limpada na minha mente barulhenta e apenas isso. Nem eu mesma vou ler aquilo depois. Mas me encontro desfrutando do meu meio dia de folga de aniversário tirado atrasado sentada em uma desconfortável cadeira da sala de embarque do aeroporto de Congonhas, uma situação que favorece a busca por atividades que exigem o tempo que eu não tenho tido.
Eu gosto de aeroportos. São lugares nojentos, perigosos em tempos de pandemia, estressantes e cruéis com o bolso caso você esteja com fome. Ainda assim, gosto porque são ambientes únicos. Em nenhum outro lugar tenho essa sensação de interrupção do tempo e do espaço que a situação de trânsito proporciona. Todo mundo aqui está a caminho de algum lugar, um aeroporto jamais será o destino final de ninguém. É um lugar que não se completa como tal, tenho sempre a impressão de sermos todos pessoas em suspensão. Ninguém chegou ainda e, ao contrário do que acontece na maior parte das vezes na vida, isso não é motivo de angústia. Sabemos que é aqui, no meio do caminho, suspensos, que precisamos estar para uma hora chegarmos no destino. E todo mundo está na mesma situação, posso olhar para absolutamente qualquer passageiro aqui, sentado na cadeira dura tentando fazer passar o tempo ou correndo para o portão de embarque, e saber que essa pessoa está no mesmo momento da vida que eu. Indo para algum lugar.
É mais difícil aceitar que precisamos percorrer um caminho antes de chegar ao destino fora dos aeroportos. Às vezes, olhamos em volta e temos a impressão que todo o resto das pessoas já chegou onde queria ou, ao menos, está muito mais próxima do objetivo do que estamos. O que frequentemente é uma ilusão estúpida, a grande maioria de nós está apenas começando uma jornada, ainda mais quando somos jovens. Mas isso não fica aparente, e nos deixamos sucumbir à angústia da pressa, da urgência de já ter feito, chegado, de já ser.
O aeroporto, com todas as restrições de segurança e estresses causados por horários de voos e mudanças de portão de embarque, ainda me traz uma sensação de calma e de liberdade para estar simplesmente esperando, indo, no meio do caminho, junto com todos esses outros seres humanos dos mais diferentes tipos que estão claramente fazendo exatamente a mesma coisa.
Acho possível aprender a sentir essa calma fora dos aeroportos, mas também acho que isso vai levar tempo. Talvez nem exista esse destino final, esse grande objetivo que nos deixa desesperados porque ainda não foi alcançado, e a vida seja na verdade um eterno aeroporto. Todo mundo em trânsito sempre. Mas não tenho como ter certeza disso agora, e é bom que não tenha, porque achar que esse objetivo existe é o que motiva o movimento. E não quero ficar parada. Quero estar em trânsito e tentar aprender a aceitar essa situação.
E estarei atenta aos chamados para o voo. Aqui em Congonhas e na vida.
Isabela Torezan
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