É verão na Europa, estava calor. Quase nove horas da noite e ainda claro, estranhei o dia tão longo. Meu corpo já abatido pelo jet lag demoraria dias para se acostumar a isso. Mas, sem dúvida, o gorro de lã rosa na cabeça daquela senhorinha era mais estranho do que o sol das nove da noite. Como eu disse, estava calor. O tecido da camiseta nas minhas axilas estava úmido há várias horas, e eu carregava na mão as duas blusas que tinha vestido no avião.
A senhorinha tinha boa vontade o suficiente para ajudar uma menina perdida e sem malas tentando entrar no quarto que tinha reservado e cuja chave deveria estar em um cofre embaixo de um pote de flor acima de uma caixa de energia do lado de uma escada. Era muita informação para a minha cabeça em ponto de fusão após um voo de nove horas seguido de uma conexão quase perdida e bagagens extraviadas.
“Gostei do seu gorro”, eu disse, para dizer algo legal depois de ela ter magicamente tirado a minha chave do cofre misterioso. “Ah, mantém minha cabeça quente”, foi a resposta. Bom, a minha também estava e sem um gorro de lã. Quem usa gorro de lã quando faz 28 graus durante o dia?
Alguém que pretende esconder orelhas de gnomo da vista de pessoas comuns que iam estranhar ver um gnomo na função de zelador de um prédio em Dublin. Claro que não pensei nisso na hora, eu só pensava na minha mala perdida. Aos poucos eu fui me dando conta da situação: quando passei pela porta, senti um calafrio estranho que logo passou, como quando passamos por um beiral de telhado de onde pinga chuva. Dentro do prédio pairava um peculiar cheiro de floresta, chão úmido e árvores, apesar das paredes de alvenaria com tinta rosa descascada e do carpete surrado, muito urbanos.
Tudo bem, concordo que não são elementos suficientes para eu ter deduzido aí que a velhinha era um gnomo reinando nesse prédio decadente. Deixe-me acrescentar uma informação importante: não sou absolutamente leiga no assunto, minha irmã é entusiasta dos cursos online na Hotmart e eu acabei fazendo um workshop de identificação de gnomos europeus que achei por lá. Era barato. Com certificado. E eu estava prestes a me mudar para a Europa, um pouco a mais de conhecimento sobre o lugar não ia fazer mal.
No curso, aprendi que a região da Irlanda e Reino Unido são bastante povoadas por gnomos produtores de cogumelos, vivendo em reinos (é como se chamam os territórios de gnomos) geralmente pequenos. Quando precisam morar em ambiente urbano, o que geralmente é o caso devido à alta urbanização dessa região, tentam reproduzir alguma característica de seu ambiente natural que os faça se sentirem em casa. O cheiro improvável de floresta me acendeu um alerta, ajudado pela sensação de ter ultrapassado uma barreira invisível na porta. Segundo a professora do curso, os gnomos são seres bastante ciosos de seu espaço pessoal e constroem barreiras de proteção que só podem ser fisicamente atravessadas mediante sua permissão (não necessariamente explícita). Tendo recebido a chave das mãos da velhinha, sem dúvida minha entrada no reino estava garantida.
No dia seguinte minha hipótese se tornou irrevogável, porque olhei pela janela, que dá para o quintal dos fundos, e vi o gnomo na sua versão masculina, um velhinho da mesma altura, dessa vez sem o gorro. Orelhas pontudas saíam de uma nuvem de cabelos brancos. Ele vestia a mesma saia marrom e camisa rosa claro que vestia no dia anterior, mas tinha trocado as sandálias de borracha por pesados sapatos de jardineiro. Observei enquanto ele meticulosamente separava e limpava todo o lixo colocado nas lixeiras pelos moradores do prédio. Plásticos e papéis foram todos secos e amassados e depois colocados dentro de uma lixeira verde, e os sacos contendo o restante do lixo foram colocados no meio do quintal, formando uma pequena colina preta. Não observei tempo o suficiente para conferir, mas é provável que ele tenha usado poderes de gnomo para transformar o lixo em outra coisa. Segundo o que aprendi no curso, quanto mais próximo do natural é a coisa (como restos de comida), mais facilidade os gnomos têm em fazer transmutações.
Me senti mal. Por que as pessoas do prédio já não separavam o lixo em seus apartamentos, em vez de colocar tudo em sacos pretos que o gnomo tinha que abrir e mexer? Eu chamaria isso de desumano se o gnomo fosse humano. E também duvido que os moradores soubessem que a zeladora era um gnomo, identificar esses seres não é assim tão fácil. É por isso que existe curso para isso.
De minha parte, tenho separado todo o lixo. Gnomos podem ser bastante vingativos e, se não fosse pelo meu próprio senso de compaixão, isso seria um mínimo que eu poderia fazer para evitar alguma possível represália. Ontem, fui lavar minhas roupas na lavanderia do prédio e o gnomo passou por mim, na forma feminina. Dei um “boa tarde” entusiasmado e ela sorriu de volta e perguntou como eu estava, então acho que minha ficha com o governante desse prédio está limpa.
Em breve, mudo-me daqui para um quarto em outro lugar. Este aqui é um prédio velho e bastante feio e sujo para os padrões de alguém que veio de uma cidade que idolatra edifícios e preza por arquiteturas esteticamente agradáveis. Mas, é também o reino de uma criatura produtora de cogumelos e o prédio que me recebeu quando cheguei aqui confusa, cansada, com dor, com medo e sozinha. Parto agradecida.
Isabela Torezan
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