Dublinense – Dois

Faz tempo que sou acompanhada pela Voz. Acho que todo mundo tem uma, o que deve variar é o momento da infância em que ela surge. Não me lembro exatamente quando a minha surgiu, mas me lembro de quando ela passou a falar predominantemente em inglês, quando fiz onze anos. Comecei a ir à escola de inglês nessa época, e forcei a Voz a falar em inglês para praticar. Aparentemente, ela gostou e resolveu trocar de idioma principal. Ela inclusive usa palavras de baixo calão em inglês, coisa que jamais faz em português. Aprendendo espanhol e francês, tentei fazê-la falar nessas línguas ao menos um dia por semana, sem sucesso. Acho que ela ficou com medo de que mais uma troca fosse afetar sua identidade.

Apesar de conviver com ela há tanto tempo, só fui perceber o quão forte é essa identidade independente dela agora, quando enfrentei uma mudança de ambiente e de condição de vida em grandes proporções. A Voz sempre esteve aqui, se mostrando autônoma ao discordar de boa parte do que faço, questionando todas as minhas decisões, chamando minha atenção para coisas que não seriam do meu interesse e também insistindo em mudanças de personalidade umas duas vezes por ano. Também sempre foi ela que me deixou indecisa sobre cortar ou não o cabelo, aparecendo para tagarelar toda vez que acho que decidi e me fazendo mudar de ideia várias vezes por dia.

Agora, ela fez algo que não imaginava que fosse capaz: se desdobrou em várias. Começou quando fui ao mercado aqui pela primeira vez e escutei a Voz me falando para comprar suco de laranja e leite de aveia. Não costumo beber suco de laranja e faz tempo que parei de tomar leite. Antes que eu pudesse reagir à sugestão de gasto desnecessário, escutei a Voz de novo, mas em um tom diferente, dizendo que esses produtos eram muito caros. Assustei. Sempre precisei debater com a Voz sozinha, quem era aquela discordando no meu lugar?

Ficou pior quando depois dessa uma terceira se juntou ao coro, dizendo que eu deveria comprar sim porque isso de economizar em comida estava errado, era importante se alimentar direito e ficar confortável. E a essas três se juntou uma quarta, dizendo que isso não se aplicava no caso, pois eu não compraria suco de laranja nem leite de aveia se estivesse no conforto do lar no Brasil.

Acabei não comprando nem suco nem leite, mas as quatro vozes continuaram debatendo na minha cabeça o resto do dia. E tem sido assim desde então, agora minha cabeça, já não muito equilibrada, é habitada por quatro e às vezes até cinco Vozes diferentes que sempre discordam.

E agora comecei a ficar desconfiada de que elas estejam incomodadas com o espaço pequeno (minha cabeça não é muito grande) e começaram a sair. Mais de uma vez, passei por pessoas falando e de repente elas soltam uma frase típica das Vozes. Fico imaginando como se sentem essas pessoas que de repente falam algo meio nada a ver sem entender porque, por minha causa. Um casal passou caminhando por mim no parque ontem, quando eu estava sentada tentando derreter algumas preocupações inúteis no sol, e a mulher disse “it’s great you’re worried about packing, some days ago you didn’t even have luggage to pack”. O homem olhou para ela espantando, porque aparentemente eles estavam discutindo algo relacionado a encanamentos e banheiros, nada a ver com malas.

O garotinho que de repente gritou “liberdadeeeeeeeeeeeeee” e começou a correr do meu lado: também tenho quase certeza de que foi possuído por uma das Vozes. Notei que tem uma delas que gosta de gritar frases de protesto e indignação nos momentos mais inapropriados. E a mãe dele pareceu muito espantada de ver o filho gritando algo em português. Aqui tem brasileiro em todos os lugares, mas aquela família não era de brasileiros. Outra mudança das Vozes aliás, agora elas falam bastante em português.

Estou tendo que me acostumar com muitas coisas: fazer comida para só uma pessoa, não ter um cachorro para cuidar, andar na chuva como se estivesse tempo bom, ver um shampoo que custa cinco euros e achar barato. Posso me acostumar com algumas vozes a mais na minha cabeça e à minha volta. E, também, quem sabe elas resolvem explorar mais a cidade sem mim, gostam e resolvem levar uma vida independente. Serão Vozes dublinenses.

Isabela Torezan

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