Dublinense – quatro

Mais de dois meses se passaram desde que cheguei nestas terras estranhas e prometi escrever sobre o que não estava acontecendo. Preconceito com diários públicos e falta de um mínimo de egocentrismo para narrar minha vida pessoal como se ela importasse. A tarefa parecia simples no começo, enxergar um pouco a mais do que a luz do dia mostra e escrever uns absurdos com coerência como o ideias verdes dormem furiosamente. Começa a ficar mais complicado conforme sinto minha capacidade de inventar sendo atropelada por dolorosas e gratificantes tomadas de consciência. Criar e se esconder é muito fácil, e pareço ter desenvolvido um novo apreço pelo difícil, que começou a se manifestar com a decisão de empreender essa jornada. Fortaleceu-se também minha necessidade de escrever por conforto, pelo meu texto ser a única coisa minha da qual me orgulho de verdade, e disso resultar um certo prazer ao ver que consigo sentar uma hora e encontrar palavras para pensamentos abstratos que rebatem nas paredes da minha cabeça durante dias.

Então aí vai algo que realmente aconteceu (?). Eu pisei em um pensamento. Geralmente, as ideias pairam em volta da minha cabeça e eu recolho com a mão, ou simplesmente ando em direção a elas. Nunca tinha encontrado um pensamento no chão, e o chão de Dublin é um péssimo lugar para qualquer coisa estar, considerando os meus padrões de limpeza. Meu tênis all star cor de rosa afundou numa ideia resistente, mas macia, mais ou menos da textura de massa de pão ficando no ponto.

Grudou como grudam os chicletes mascados preguiçosamente cuspidos na calçada, com a diferença de que era uma ideia muito maior do que um chiclete e me fez ter de caminhar enfrentando algum desequilíbrio no tamanho das pernas. Tudo bem, não faltava muito para eu chegar no quarto e poder tirar os tênis. Enfrentando o nojo, lavei a ideia na pia do banheiro, com sabonete, e coloquei para secar perto da janela.

Agora ela está aqui, limpa, mas ainda predominantemente indescritível, e de vez em quando eu a cutuco com o dedo para sentir a textura resiliente e ver se descubro como aproveitá-la. Tenho medo de que estrague, mas não quero colocá-la na geladeira, que compartilho com outras cinco pessoas.

Não faço a menor ideia de como usar essa ideia, então por enquanto o que posso fazer é conviver com ela. Às vezes, de noite, ela emite uma leve fluorescência que me impede de pegar no sono. Uso uma máscara de dormir quando isso acontece. É inodora a maior parte do tempo, embora eu tenha sentido um aroma de chá lapsang souchong que suspeito que venha dela.

Como explicar esse incômodo? Saber tão bem uma coisa, e não conseguir fazê-la avançar desse formato indefinido macio. Continuarei tentando. Está cada dia mais frio, penso que o clima vai ajudar a conservá-la, posso mantê-la no mesmo lugar perto da janela. O máximo que pode acontecer é eu acabar com uma ideia de estimação, ou precisar achar um jeito de enterrar uma ideia morta.

Isabela Torezan

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