Uma gaivota trombou com toda a força na porta de vidro do mercado, e caiu no chão, e seu pequeno corpo branco e macio ondulou em espasmos de morte durante os segundos que consegui assistir antes de entrar correndo e procurar leite de aveia e manteiga de amendoim como se fossem os produtos que iriam salvar a nós todos, a gaivota, o mendigo da frente do mercado, eu mesma. O olho da gaivota, fixado no mendigo que fazia tudo o que podia, ou seja, nada, está fixado na tela interior da minha mente e agora o vejo em todo círculo ou circunferência. Quando saí, o corpo já não se mexia e tinha sido empurrado para mais perto da lata de lixo. Sete minutos, o tempo que fiquei lá dentro. Teria ela agonizado por sete minutos, ou menos?
Minha noção de tempo está deformada, sete minutos parecem um tempo enorme para uma vida extinguir-se, embora eu saiba que algumas levam anos, mas também é insuficiente para várias atividades que antes eu fazia em um minuto. Ontem, uma gaivota tentou roubar o sanduíche da minha mão e no calor da dor provocada pela bicada acho que senti raiva do bicho. Durou pouco, imediatamente passei a sentir raiva das pessoas que alimentam gaivotas com batata de pacote, mas a gaivota que morreu hoje trombando na porta do Tesco bateu no meu ceticismo de fachada também.
—–
O vento grita, uiva lá fora e as árvores se dobram e chacoalham e parece que tudo vai ser carregado por essa ventania. Aqui dentro tem só a consciência de que lá fora venta, entre mim e o vento real tem duas camadas de vidro. A moça do prédio da frente já está quase pronta, todo dia assisto seu ritual de maquiagem com um grande pincel, tocando as bochechas com gestos rápidos (mas não apressados, ela gasta um bom tempo nisso). Eu acho que a janela dela só tem uma camada de vidro. Estou duas vezes mais protegida do mundo do que ela.
Tenho prestado muita atenção em vidros, janelas. Quando o trem e o ônibus passam na minha frente enquanto espero para atravessar a rua, os vidros viram espelhos ruins e vejo meu aspecto horrível (roupas e cabelo sobreviventes de vento) refletidos sobre os rostos dos passageiros. Os cafés parecem aquários, para mim que passo do lado de fora e vejo humanos felizes e tristes e cansados e entediados e excitados comendo suas comidas durante uma pequena pausa na sua vida de humanos em que ficam mais próximos dos peixes: presos atrás de um vidro e sem serem ouvidos por quem está fora.
Atrás de cada janela de apartamento que vejo na rua tem uma vida, talvez várias vidas inteiras, em uma cidade em que falta lugar para as pessoas morarem a chance de uma janela ser a de uma casa vazia é mínima. Mas vi um prédio de escritórios vazio, as janelas sujas e cinzentas exalando um ar de morte mesmo à distância. O prédio parecia triste, sozinho.
—–
Ficar sozinha, fazer coisas sozinha, é viciante. Funciona pelo mesmo mecanismo que o consumo de açúcar e álcool: quanto mais tempo sozinha passo, mais sinto vontade. As coisas são mais bonitas quando as aprecio sozinha, comidas mais saborosas, ideias fluem com mais facilidade. E as pessoas são melhores, consigo ver beleza em suas feiuras se as vejo de longe. O efeito dura um tempo depois que acabam os momentos solitários, fazendo-os benéficos até mesmo para os momentos na companhia de outros seres culturais.
Tem me incomodado uma certa deficiência na minha capacidade de absorver o agora, porque minha cabeça vive constantemente em algum período entre alguns dias e alguns anos à frente, mas raramente no dia de hoje. Ficar sozinha tem sido essencial para tentar me curar desse problema. Nesses momentos pratico a técnica que desenvolvi, mentalmente aumentando e reduzindo meu espaço imaginário. Me imagino grande, muito grande, tão grande que sou uma grande nuvem ocupando toda a calçada do parque, depois pequena, bem pequenina, sou a noz que o esquilo está carregando para cima da árvore. Esse exercício geralmente tem efeito em me vincular ao presente e ao local, e não pode ser feito na companhia de outras pessoas.
——-
O silêncio: às vezes, ele pode adquirir um estado material maior do que o som. Sente-se o silêncio tomando forma no ar ao redor, e invadir a cabeça pelas cavidades, pelo nariz, pelas orelhas. Como um gás. Seria possível explodir de silêncio?
Isabela Torezan
Leave a comment