Dublinense – seis

Quando estava no ensino médio, tinha sonhos extremamente violentos com frequência. Dormindo, assassinei todos os meus colegas de classe diversas vezes, utilizando vários métodos. Lembro-me de um em que usei a perna de ferro de uma carteira escolar para atravessar todos os adolescentes e transformei a sala em uma piscina de sangue.

Na faculdade, e depois, as violências noturnas se tornaram menos comuns. Talvez até inexistentes. Na noite passada, tive pela primeira vez em muitos anos um sonho com o nível de escatologia daqueles assassinatos inconscientes. Sonhei com um grande grupo de pessoas que arrancavam o centro da palma das próprias mãos. Usando facas, desenhavam círculos do tamanho de moedas e então arrancavam pele, carne e ossos em meio a gritos horríveis de dor. Eu assistia sem fazer nada. Não me lembro se no sonho eu queria fazer algo e não podia, ou se não queria fazer nada. Lembro apenas de ter assistido muitas e muitas pessoas arrancando o centro das palmas e a calçada (o sonho se passava em uma rua) ficando sujo com pedaços de carne humana ensanguentada.

Os mendigos todos seguram copos de café usados, para as pessoas colocarem moedas dentro. Não estendem as mãos espalmadas. Mas alguma parte do meu cérebro conecta palmas da mão a pedintes. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry. Any spare change? I don’t have it sorry.

A pobreza é violenta. Sinto tanto desespero quanto sentiria se os mendigos estivessem arrancando o centro da palma da mão. Mas não é o mesmo tipo de violência que aquela que às vezes se apresenta como uma necessidade, cravings, o dia ia mais ou menos bem e de repente sinto uma vontade terrível de destruir alguma coisa, rasgar papéis, atirar uma pedra dentro do rio, socar a pia do banheiro. Gritar. A vontade passa tão rápido quanto chegou, às vezes basta olhar uma ave levantando voo ou ver passar uma mãe com um bebê.

Não sei aonde eu queria chegar com isso, quando comecei estava intrigada com manifestações da violência na minha vida. Mas não consegui uma conclusão e agora encarar o cursor piscando está sendo violento. Cada frase é um parto (ou um assassinato? Estou criando ou matando coisas?). Se bem que frequentemente escrever é difícil, e por isso mesmo eu me atiro a isso com tanta voracidade quanto os arrancadores de palmas incapazes de parar. Sujando as páginas com meus pedaços de humanidade. Aqui acaba violentamente o texto.

Isabela Torezan

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