Dublinense – sete

Cinco horas. O guarda do parque passou balançando um sininho que um dia deve ter sido dourado, tlim dlim tlim dlim. “The park is closing, please go to the main gates”. Yes sure thank you. Ela saiu, virou a esquina e esperou no ponto de sempre, encostada na parede. Dez minutos, era o tempo que os dois guardas levavam para trancar os portões com as correntes velhas e um cadeado ridiculamente grande. Depois eles pegariam suas mochilas, onde guardariam os coletes verdes, e iriam para a estação de trem. Tudo sempre tão igual. Dias deliciosamente parecidos. A monotonia tornava mais fácil suportar a inconveniência que era ter que ir ao parque vazio, já ficando um pouco sinistro pela falta de luz, e depois escuro e tenebroso e frio.

Apoiando o pé em uma das barras de ferro transversais, ela escalou o portão fechado e desceu o mais cuidadosamente que conseguiu pelo outro lado, a mochila cheia que carregava dessa vez tornando a coisa um pouco mais difícil que o normal. Estava levando para casa vários potes plásticos vazios, aparentemente todo mundo no escritório tinha lembrado de devolver os seus tupperwares no mesmo dia. Sentiu uma dor aguda na frente da perna direita. Quando chegou no chão, puxou a calça e iluminou com a luz do celular: sangue. “Péssimo”, pensou.

Cobriu a perna de novo, soltou o cabelo e pegou o caminho lateral em direção ao banco onde sempre apoiava a mochila. Já sentia os membros formigarem, o corte na perna estava acelerando o processo, talvez. Caminhou rápido, enquanto as pernas ainda eram humanas, até a fonte com cachoeira artificial que ficava na lateral do parque. A tempo, assim que tocou a água mais da metade do corpo já estava coberto por pelos densos, grossos, mas macios, e os braços deram lugar às patinhas de lontra.

Era sempre doloroso, mas ao menos rápido. E tudo o que precisava fazer era tirar as roupas, se acomodar na beira da água e esperar uma hora, às vezes uma hora e meia, até que a destransformação começasse e ela pudesse se vestir de novo e sair andando. Tinha medo de voltar para casa no escuro, mas não tinha escolha. Tinha tentado se transformar no banheiro, e tinha sido horrível. Precisava de ao menos um pouco de verde perto, ambiente natural. O corte na perna tinha ficado sujo de pelos, teria que fazer um curativo cuidadoso quando chegasse.

Pare de tentar ser quem você não é, dizem. E quem (não) era ela? Às vezes, contemplava o corpo branco e liso de humana e sentia falta da proteção dos pelos grossos, e quando estava transformada desejava o próprio corpo no outro estado, a mutação em animal era só exterior. Não gostava de espelhos, a tornavam sempre mais confusa. Sabia que poderia interromper as transformações, não estava condenada a isso, mas e como seria ter certeza sobre sua própria identidade? Uma vida tão definida parecia assustadora.

Pegou a mochila, pendurou no ombro e, meio atrapalhada por causa do corte na perna, escalou de novo o portão. Os potes plásticos vazios chacoalhando faziam barulho. Ela se imaginou contando ao pessoal que se transformava em lontra todos os dias e riu alto, muito alto.

Isabela Torezan

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