Eu me agarro em recomendações de livros com a mesma intensidade com que as pessoas se lançam na busca pela alma gêmea ou simplesmente algumas horas de afeto exclusivo. Não posso ouvir alguém falar de um livro com um mínimo de entusiasmo que não resisto a tentar manter a pessoa falando, quero saber o que a conecta a esse livro, qual a história dela com ele, um tipo de voyerismo não julgado porque pouca gente sabe que existe. É mais excitante do que simplesmente assistir alguém lendo, nem todo mundo expressa no rosto o prazer (ou dor) que sente enquanto lê. Preciso ouvi-los. É uma forma legítima de ter o que eles tiveram, de talvez sentir as mesmas emoções ainda que isso não possa ser classificado como compartilhar, acho. Aí vou em busca do livro em si, e ahhhhh ter uma biblioteca tão perto onde a chance de encontrar qualquer livro é de 99%. A expectativa, a dúvida, será que para mim vai funcionar da mesma forma? Ansiedades perfeitamente seguras e pouco violentas. A maior decepção causada por um livro jamais vai chegar perto da menor causada diretamente por uma pessoa. Tem uma música de Belle and Sebastian que diz I watch the people making out/I’m lost I know it, I’m waiting for/Some kind of message, some kind of break/They say, good things happen if you wait. É comum ouvir isso, it happens if you wait. Mas eu nunca estou esperando, porque esperar para sentir alguma coisa quando é tão fácil conseguir praticamente qualquer tipo de emoção, elaborada, selecionada e embalada em paper back ou hard cover? Literatura salva do tédio, do vazio de existir e, ao contrário do que minhas descrições talvez deem a entender, pode ser o que impede alguém de se alienar completamente de emoções humanas e de pessoas reais vivendo à sua volta.
No caso de livros de biblioteca, que podem acumular dezenas de leitores anteriores, a conexão com o outro se manifesta também de outras formas não tão óbvias quanto o meu voyerismo de leitores apaixonados. Peguei uma edição de The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy que está cheia de rabiscos de lápis nas primeiras páginas. Só nas primeiras páginas. Essa pessoa desenhou pequenos triângulos debaixo de palavras aparentemente aleatórias, e em determinado ponto sublinhou uma frase e escreveu na frente “vampire” (a frase mencionava atacar pescoços). Analisando melhor, percebe-se que as palavras marcadas são todas um pouco mais complexas do que o restante das palavras do texto (relativamente simples, sci-fi para adolescentes) e, talvez, com significado não muito óbvio para alguém cuja língua materna não é inglês. A pessoa desistiu dessa leitura estudiosa cedo. Desistiu porque começou a gostar tanto do livro que não conseguiu dispensar atenção ao fato de que não tinha certeza do significado de todas as palavras, ou porque achou a história tão chata que nem mesmo continuou a ler? Essa leitora ou leitor será para sempre um mistério, um personagem tornado irreal que pode, portanto, assumir diversas formas e me entreter por muito mais tempo.
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Penso que a razão para ter a literatura como cura e alívio se deve à possibilidade de desapego da realidade que ela proporciona. Eu acho as outras pessoas tão presas ao que é real, ou ao que elas acham que é real, e tenho pena delas quando vejo que isso as faz sofrer. Tenho pena de mim mesma também, quando me vejo presa na sensação de urgência que o “mundo real” causa. Acontece com frequência. Então leio. Talvez outros consigam isso de outras formas (religião? Drogas?), mas é lendo que percebo, ou antes, consigo a liberdade de perceber, que essa aparente realidade que vemos e vivemos é tão absurdamente relativa. Frágil. Imagino uma grande figura composta de bolinhas de isopor coloridas, um suspiro e tudo se desmancha e muda de lugar. É uma consciência perigosa, que precisa ser tratada com cuidado, porque pode ter efeitos bastante contrastantes. Pode gerar uma inércia avassaladora, total ausência de qualquer motivação porque afinal, se nada é real, nem a menor ação tem um sentido verdadeiro. Que dirá grandes objetivos. No lado oposto, está a alegria de ver essa coisa tão fraca funcionando até bem. A beleza do mundo está nessa magia, nessa insistência em existir mesmo sendo irreal. O mundo é in-crível, não podemos crer nele, mas podemos ler essa realidade sabendo que é só uma das muitas possíveis. Tem muitas outras na estante.
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Passei por esse beco com certeza mais de cem vezes desde que cheguei, é no caminho do mercado. Ele sempre foi um beco sem saída. Hoje acordou com saída e virou uma rua.
Isabela Torezan
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