Não sei se é isso que chamam de memória fotográfica, e seria bem estranho se fosse, porque minha memória é conhecida por ser ruim e memória fotográfica tem fama de boa. Além disso, não é apenas a imagem que registro nesses frames de memória que acabei nomeando de fotográficos, simplesmente porque não esqueço deles mesmo depois de anos, ficam guardados como uma fotografia no meu álbum mental. Está mais para memória cinematográfica 4D, envolve mais sentidos além da visão. Existem momentos, a maioria com segundos de duração, que ficam gravados na minha memória de forma indelével. Com o tempo, aprendi a identificar esses momentos pouco depois que aconteceram, não preciso esperar anos para notar que ainda estão ali tão vívidos. Mais que isso, aprendi até a controlá-los em alguma medida, obtive sucesso em gravar alguns momentos que eu queria. Não funciona sempre, claro, seria bom demais para ser verdade. Imagina construir uma biblioteca sensorial de bons sentimentos, e pode revivê-los quando se bem entendesse.
Eu me lembro do salgadinho de bacon que experimentei em uma festinha de aniversário quando tinha seis anos, os segundos necessários para morder o salgadinho, achar horrível e tirar ele da boca, desesperada por uma forma de me livrar daquilo. O gosto horrível e gorduroso, o cheiro de óleo, a textura murcha e ao mesmo tempo borrachuda, e a sensação de desespero (comecei a comer, e agora?). Consigo sentir tudo isso de novo quando quiser.
Memória de uma bala mascada atingindo minha nuca e colando no meu cabelo Hermione (poodle, alguém tinha escrito em cima do meu nome no mapa de sala). O impacto do pequeno projétil, seguido da sensação de nojo ao perceber o que era, e o som de risadas na fileira imediatamente atrás. Essa se reproduz sozinha em todo momento em que cabe insegurança social, fundada ou infundada.
Nem todas são ruins. Com o estímulo de um pouco de sol, consigo reviver segundos específicos que registrei (esses intencionalmente, um de meus sucessos) no topo do Arthur’s Seat, uma montanha no meio de Edimburgo. A temperatura do sol, a velocidade do vento, a dureza da pedra onde me encostei e um pouco de pó grudando no suor da minha mão. Mais evidente, a sensação de ter vencido alguma coisa, não saber o que e não se sentir vazia apesar disso.
Aqueles que não planejo são sempre aparentemente aleatórios, um conjunto de sensações muito bem definidas e encapsuladas, condensadas, dentro de poucos segundos e formando uma unidade sensorial que se reproduz eternamente sem mudar (sem eu achar que muda, o que acaba sendo a mesma coisa).
Desde que cheguei aqui tenho tentado produzir algum registro desses, é uma forma eficiente de sentir que o tempo está sendo bem aproveitado. Sem sucesso. Para que uma dessas cápsulas de memória seja criada é preciso que o momento seja carregado de consciência sensorial de uma maneira particularmente intensa, envolvendo pelo menos três sentidos mais alguma emoção em alta resolução. É difícil se concentrar para conseguir isso.
Hoje registrei o primeiro e foi espontâneo. Quem sabe depois dele eu consiga produzir outro conscientemente. Foram os segundos necessários para a colega de sala ao lado da qual eu vinha andando há alguns minutos se despedir dizendo “it was very nice to talk to you today”. Som: a voz dela alguns decibéis acima do normal competindo com o som dos carros e do freio de um ônibus. Temperatura: frio no meu rosto descoberto mas calor úmido nas minhas axilas cobertas por um casaco desproporcional. Dor sutil no meu calcanhar esquerdo ainda não sarado quando freei bruscamente para ouvir a frase. E duas sensações misturadas. Um pavor súbito por ela estar começando a atravessar a rua ainda olhando na minha direção, vejo morte. E uma onda de choque, a frase it was very nice to talk to you today soou tão improvável, impossível e errada que sei que não vou acreditar nela mesmo depois que esse registro se reproduza indefinidamente pelo resto dos meus dias.
Isabela Torezan
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