“Live crib”, dizia a placa, com uma seta apontando o caminho lateral do parque. Meu dicionário mental não forneceu de imediato o significado de “crib”, mas sendo época de natal num lugar em que tudo vira decoração de natal, e vendo as cores da placa, imaginei que ela indicava o caminho do presépio do parque. Mas “live”? A primeira coisa em que pensei não foi, como nunca é, a mais racional. Teriam montado um presépio com um bebê vivo representando o menino Jesus? Teria que ser um bebê magrinho e fraquinho, afinal Maria e José eram pobres. Quantos bebês concorreram ao papel de Menino Jesus no presépio do St. Stephen’s Green Park? E como seria o esquema para manter esse bebê aquecido, a temperatura no momento era de – 1°C.
Muito, muito frio, mas continuei andando na direção indicada, placas tão pouco esclarecedoras são sempre atraentes. O parque tem uma espécie de píer coberto perto do laguinho dos cisnes, era essa construção que estava enfeitada com luzinhas e tinha uma concentração de pessoas na frente. Achei o live crib. Vamos ver do que se trata. A essa altura, não estava mais imaginando um bebê vivo, mas não estava totalmente preparada para a cena que ia encontrar.
O burro mais triste do mundo me olhava de dentro do presépio vivo. Vestido com uma roupa vermelha e acompanhado de duas ovelhas e uma cabra, o animal mais sem vida que eu já tinha visto até então tinha sido encarregado de dar vida ao presépio vivo. Na parede, um desenho tosco representava a parte humana da cena. As ovelhas remexiam a palha do chão com os focinhos, completamente absorvidas. A cabra mastigava incessantemente, olhando as pessoas com o queixo erguido e parecia prestes a cair na gargalhada. Mas o burro. O burro não se mexia, e quando cheguei perto ele lentamente virou a cabeça na minha direção, seus olhos lacrimejantes me fazendo ter vontade de chorar antes mesmo de ele começar a falar.
– Boa tarde, moça. Feliz Natal.
Não me espantei que ele falasse português. A chance de a pessoa que cuida dele ser brasileira aqui é de uns 96%.
– Não precisa fazer essa cara – ele continuou. – Não tem nada que você possa fazer.
Uma garotinha usando um gorro em formato de unicórnio se agarrou na cerca frontal e, esticando a cabeça para a frente, berrou na cara do burro. O burro apenas piscou.
Eu queria conversar com esse burro. Ele provavelmente tinha lido os mesmos livros que eu e eu poderia passar horas falando sobre os personagens, os enredos, minhas interpretações e comparações com adaptações para o cinema e ele não ficaria entediado. Parecia um burro muito empático, apesar de triste. Mas era triste, muito triste, e eu segurei as lágrimas e acenei em despedida, marchando de volta para a entrada do parque e para longe daqueles olhos depressivos. O burro balançou a cabeça, adeus, moça. Feliz Natal.
Isabela Torezan
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