Para minha mãe – feliz natal.
Uma das minhas atividades favoritas aqui é ouvir pedaços de conversas de outros brasileiros nas ruas, já deve ter ficado claro que o fenômeno “brasileiros na Irlanda” me interessa, dada a frequência com que menciono isso. Eu sempre amei a minha língua, a única aluna da escola que honestamente gostava da aula de português. Amava a aula de português. Aqui, forçada a usar outra língua para sobreviver, o gosto tomou um rumo nostálgico e me agarro ao som do português em uma tentativa débil de combater o sentimento de falta de pertencimento, propósito e identidade que foi ridiculamente intensificado por esse país falante de inglês.
“Filho da putaaaa”, entregador de comida para um táxi ignorando o sinal vermelho. “Amiga mas vem preparada porque assim, três mil euros vai assim, pufff, é tudo caro”, moça se misturando aos locais fazendo videochamada no meio da rua. “Eu parei de estimular, tá ligado? O povo manda mensagem perguntando, eu vejo que é uma galera mó perdida, acha que vai vir assim e começar vida de europeu, mas na verdade é só perrengue”, rapaz muito alto com cabelo comprido amarrado em um rabo de cavalo falando ao seu silencioso amigo tatuado.
Algumas vezes são conversas engraçadas, comentários sobre uma noite louca, mas a maioria do que ouço são acidezes sobre morar aqui. Vindas, talvez, das mesmas pessoas que exalam eurocentrismo quando estão no Brasil. O que é tão bom que compensa a cozinha sem ralo? Não julgo nem critico, acho que todo mundo tem o direito a um mínimo de contradição, se inofensiva. E não é o conteúdo da conversa deles que me interessa, são as palavras, palavras. Por serem palavras, e não words.
A voz da minha cabeça que falava em inglês desde que a forcei a isso para conseguir fluência na língua timidamente deu lugar à voz que fala em português, uma identidade em protesto que só consegue se afirmar assim por estar deslocada. Minha língua no país em que ela é estrangeira é duas vezes minha língua. Ao escrever, um ato individual e aparentemente silencioso, não se pode gerar o impacto desse tipo de identidade com tanta força quanto ao falar. Escrever sempre foi e ainda é minha forma de afirmação principal, mas mover toda uma existência diária para uma outra língua cria uma necessidade de imposição a mais, uma que a palavra falada parece suprir melhor.
Para o meu desespero, porque considero que não sei falar. Não da forma como queria. Falo o que não penso, não penso o que falo, penso no que não falei, penso em falar e falo pensando. Uma mente e oralidade desconectados. Por outro lado, talvez fosse essa a necessidade de que eu precisava para tentar finalmente aprender. A necessidade é a mãe da invenção, e da coragem também.
Comecei a fazer análise e então me vejo falando pela primeira vez na vida. É difícil e não é prazeroso, não estou fazendo isso para me divertir. Mas é o que eu queria descobrir que era: possível. É possível falar, é possível ver uma mudança futura no estado das coisas. Ao menos, consigo acreditar que seja. Não é como escrever, é muito mais arriscado e menos protegido, menos seguro. Tenho muito mais pavor de ser ouvida por uma pessoa do que de ser lida por centenas (ah, se um dia).
E não espero cura, a cura vem da palavra escrita (lida ou produzida). Mas é a possibilidade de falar, a descoberta dos sons, que arrancam de uma vez do fundo de algum lugar que não sei onde é coisas que antes não estavam visíveis ou tocáveis (e, portanto, não curáveis). Acredito que eu poderia tirá-las desse lugar apenas escrevendo, mas levaria muito mais tempo. É a diferença entre puxar um curativo devagarinho e arrancar de uma vez com um doloroso puxão.
Meu português falado cavando a alma e o português tagarelado dos meus compatriotas sempre inconformados e insatisfeitos, mas sorrindo, existem, resistem, insistem, aqui onde a língua é outra, onde quem nasceu aqui não pode nos entender. Para conseguir terminar esse texto, coloquei para tocar Saudade, música do compositor islandês Ólafur Arnalds (que, até onde sei, não fala português). É uma música triste e que parece incompleta (como saudade?). Começo a pensar que tipo de linguagem são sons e melodias, e se quem escreve sons para serem tocados saberia falar o que a música consegue dizer sem usar palavra nenhuma. Mas isso fica para outro dia de palavras escritas.
Isabela Torezan
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