Eu sempre gostei de Ano Novo porque gosto de organizar as coisas, e começar de novo é um dos melhores jeitos de organizar. Novas listas de coisas a fazer, uma nova rotina autoimposta que supostamente torna meus dias mais fáceis de serem vividos, novo jeito de guardar minhas roupas no armário. Pela primeira vez, não entrei em um novo ano renovando tudo que é possível. Cortei o cabelo mais curto, mas já fiz isso antes. De resto, predomina uma sensação de continuidade, de ter entrado aqui carregando quase as mesmas coisas do ano passado.
Isso me incomoda menos do que pensei que fosse. Em parte, porque tenho tentado adquirir mais consciência sobre a relatividade das marcações temporais; boa parte do mundo nem mesmo considera que entramos em um novo ano agora, por exemplo. Algumas pessoas marcam novos ciclos pela data do próprio aniversário, o que faz bastante sentido. Minhas tentativas de fazer os acontecimentos se encaixarem em períodos de tempo esperados falharam repetidamente, essa claramente não é a estratégia mais sábia que eu posso adotar.
Além disso, percebo que várias das coisas que “renovei” em anos anteriores valem serem mantidas do jeito que estão, e não renovadas. É um pouco difícil ver isso depois de um ano muito dedicado a expressar insatisfação, mas é com certeza desnecessário mudar certos hábitos que eu imagino responsáveis pela minha saúde física exemplar, por exemplo.
E outra coisa é a sensação de falta de poder sobre as mudanças. Temos bem menos controle sobre isso do que eu já pensei que tínhamos. Quando penso nas várias formas que já tentei dar à minha personalidade, na tentativa de promover uma mudança enriquecedora, vejo um negócio completamente fora de controle, sem padrão nenhum. Ao mesmo tempo, também não acredito na eficácia de simplesmente deixar as coisas acontecerem e viver sem planejamento. Acho que quem diz viver assim está mentindo descaradamente. Qual o equilíbrio entre os dois extremos, então? Não tenho a menor ideia.
Não faço ideia disso e de muitas outras coisas. Passei essa virada de ano em um lugar diferente do ano novo passado, cercada por outra língua, longe de quem amo, lidando com outros tipos de problemas diários, e, no entanto, as únicas coisas novas que sinto ter trazido de 2022 são perguntas. Dúvidas. Eu perdi uns bons quilos de certezas e meias certezas. A sensação de absurdo que já mencionei antes me faz questionar coisas o dia inteiro, como perguntas no café da manhã. O lado bom de serem tantas é que quase não me sobra tempo para me angustiar por não saber as respostas. Preciso continuar perguntando. Feliz Ano Novo?
Isabela Torezan
Leave a comment