Ela viu a amiga sentada no banco de costume, um sanduíche comido pela metade em uma mão e o celular na outra, descendo o dedo pela tela. Maria guardou o aparelho no bolso quando a viu chegando, e mordeu o sanduíche mais uma vez. Ela sentou-se no banco também e esperou que a outra terminasse de mastigar para cumprimentar, não gostava de dar oi para pessoas com a boca cheia que não podem responder.
– E aí, tudo certo?
– Tudo. – Maria limpava gordura de queijo do rosto com as costas da mão. – E você?
– Indo, mesma coisa. Não é sobre mim que eu queria falar.
– Hum. Fofoca?
– Sua besta. É algo sério.
Maria terminou de engolir o resto do sanduíche e se virou mais no banco, ficando de frente para ela. Se Geórgia, a séria, disse que o assunto era sério era porque era sério mesmo.
– É o Isaque. – ela começou, sem saber bem como introduzir o assunto. – a irmã dele me procurou, não sabe mais o que fazer e os dois não têm mais ninguém aqui, ela achou que eu poderia ajudar de alguma forma. E eu não quero me meter nisso sozinha, você podia dar um apoio também.
– Nossa, mas o que ele fez?
– Nada ainda, esperamos. O problema é o que ele vai fazer.
Maria olhou para ela em silêncio por alguns segundos.
– Não sei se é o que estou pensando. Isaque é o cara que sempre se veste de amarelo, certo?
– Esse mesmo. É o que você está pensando. Segundo a irmã, ele tem dado sinais faz semanas, e ela sabe que não se deve ignorar quando a pessoa faz ameaças assim, mas não consegue manter ele sob vigilância. E agora faz mais de um dia que ele se trancou e não sai mais. A moça veio falar comigo num estado de nervos que você nem imagina.
– Meu deus.
– Sim. Aí o plano é ir até onde ele mora e tentar tirar ele de qualquer forma.
– Eu acho isso meio perigoso.
– Ué, por que? Esqueceu onde você está? O que poderia acontecer aqui?
Maria deu uma risada baixinha e alisou a blusa. Já escurecia, as árvores secas ao redor delas começavam a parecer silhuetas de papel preto.
– Ainda não me acostumei, cheguei faz pouco.
– Pois é. – ela levantou-se do banco, num convite para irem andando. – O Isaque também. Uma razão a mais para tentarmos impedir isso.
Concordando com a cabeça, mas suspirando, Maria levantou também.
– A gente vai a pé? O cemitério fica longe.
– Não é tão longe assim, dá uns trinta minutos andando. Não é isso que vai fazer diferença.
Maria deu de ombros e começou a andar rápido, ela apertou o passo para acompanhar o da amiga. Com a noite também sempre vinha um vento gelado, ela fechou o casaco até o pescoço. Ela já estava mais acostumada, porém, com o clima tétrico permanente do lugar. Maria ainda tinha dificuldades.
– Você acha mesmo que ele ia fazer isso? Assim, não quero acusar ele de só querer chamar a atenção ou algo assim, mas sei lá. É difícil para mim conceber isso. – disse a amiga.
– Para você é difícil entender porque você está se adaptando. Ele provavelmente não está. Não é comum, mas acontece.
– Tá, mas o que você espera fazer? Simplesmente arrombar e falar com ele?
– É, sei lá. Qualquer coisa que faça eu sentir que tentei ajudar. Fiquei com dó da irmã dele.
As duas seguiam pelo caminho forrado de pedrinhas cinzentas, Maria pisava enterrando os calcanhares com mais força do que o necessário porque gostava de ouvir o barulho das pedras em atrito. Geórgia achava aquilo irritante, mas era tolerante demais para reclamar. A história a perturbava mais do que gostaria e do que deixava transparecer. Sabia que o Isaque estava daquele jeito por não conseguir se adaptar porque ela mesma não tinha se adaptado. Acostumada, sim, o que não é a mesma coisa que adaptada. Ela nunca conseguiu gostar do lugar. Maria, que ainda não tinha tido tempo de se acostumar, já parecia mais adaptada do que ela. Disposta a se acostumar, aceitando a nova condição, enquanto ela estava sempre em uma constante luta. Achava que só não tinha chegado no nível do Isaque por ser medrosa ou preguiçosa. Uma pessoa sem ação, para qualquer lado.
– É aqui, né? – Maria tinha parado na frente dos portões de ferro preto brilhante. – Você sabe qual é o dele?
– Sei, a irmã dele disse alameda 6, o mausoléu da família é um pequeno sem enfeites do lado de um que tem anjinhos em cima. E tem o sobrenome escrito, Caldas. Não deve ser difícil de achar.
Não foi. O lugar estava silencioso, pouca gente ficava em casa no sábado de tarde e quem ficava não fazia barulho. Uns poucos corvos gritavam do alto de uma árvore, marcando presença. O mausoléu dos Caldas tinha as portas fechadas. Maria colocou as mãos em concha no vidro e espiou dentro.
– Não tem ninguém de pé. – a voz dela soava apreensiva, sugerindo que tinham chegado tarde demais.
– Vou entrar. – Geórgia abriu a porta direita, mais tarde pensou que deveria ter estranhado estar destrancada, e entrou. Cabiam quatro caixões no mausoléu, e só dois dos nichos estavam ocupados. Tudo bem limpinho, sem poeira, sem teias de aranha.
– Isaque? – ela falou em um tom de voz alto o suficiente para ele ouvir caso tivesse se trancado dentro do caixão.
Nenhuma resposta. Ela bateu com os dedos nos dois, não sabia qual deles era dele e qual era da irmã.
– Acho que temos que arrombar mesmo. É verdade aquilo que não lacram mesmo os caixões, né? Eu nunca tentei entrar de volta no meu, acho mais confortável fora. – Maria tremia ligeiramente e cruzava os braços na frente do corpo.
– Sim, para o lado de cá todos ficam abertos, acho que por causa das inspeções regulares. Isso de lacrar é por higiene e segurança dos vivos.
Ela puxou, com dificuldade, um dos caixões pela alça e afastou a tampa. Vazio. Fez o mesmo com o outro. Vazio.
– Maria, ele não está aqui.
– A irmã dele tem certeza de que ele veio para cá? Tipo, ele não pode estar andando perdido em algum lugar por aí? Sem ter avisado ninguém?
– Ela disse que tem certeza. Que viu ele entrando e que veio atrás dele e chamou e ele se recusou a sair. Ela voltou e tentou outras vezes, mas não quis ficar aqui, ficou muito nervosa. E aí foi pedir minha ajuda.
—
Geraldo tirou uma foto do pequeno embrulho no qual se via a cara redonda e vermelha de seu primeiro filho, recém-nascido, e compartilhou no grupo da família. Uma enfermeira entediada vigiava o quarto.
“Isaque nasceu!!!!!!” escreveu ele na legenda, acrescentando um “Tudo certo com os dois” com emojis de mãos em posição de oração.
Segundos depois, sua mãe, que provavelmente não tinha desgrudado do celular desde o começo do parto, respondeu com “Graças a Deus!!!! Orgulho, meu neto”.
Geraldo cutucou o embrulho com o dedo, delicadamente. Orgulhoso também, nascer era um ato de muita coragem e seu filho tinha se saído muito bem.
Isabela Torezan
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